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Eu sou um Golf

Cristiano Duarte, jornalista, [email protected]


Restava-me encostado num muro com os braços cruzados, um dos pés apoiado na parede e fazendo cara de mal. A camisa estilo Agostinho Carrara complementava o cenário, como quando de sempre. Defronte para a minha mais nova aquisição, eu aguardava Dalila sair da Univates.
Golf. Ano 2001. Verdão. Rodas 17. Farol Xenon. Bancos de couro. Som nas quatro portas. Vidros cor de piscina. Comprado à vista. Cartão de crédito, uma ova. Foi no pila. Dindin em cima de dindin. R$ 18 mil investidos numa revenda de fundo de quintal. O suor e o grito silencioso do trabalhador honesto que enfrenta 12 horas de trabalho por dia pra gastar dinheiro em bobagem.
Mas eu estava pronto pra Dalila. Voraz tanto quanto um Golf de 116 cavalos. Prometi desbravar com a prometida Dalila os 230 quilômetros de asfalto, sol e mãos sobre as coxas entre Lajeado e Xangri-lá numa viagem inesquecível.
Assim foi.
Ouvi os mais antigos passando para os mais novos que revisar o carro antes de uma estrada era coisa fundamental. Mas, eu tinha pressa. Mulheres como Dalila não surgem em qualquer veraneio bissexto.
Cheguei no posto e precisei me impor. Um frentista veio me ajudar, mas eu quis mostrar para Dalila que no meu carro, eu que entendia do assunto.
- Agradeço sua ajuda, meu amigo. Mas, seguinte: meu Golf, minhas regras.
Abri o capô. Um Mundo de Sofia, cheio de novidades e possibilidades se abriu em meus olhos (ou óleos, talvez). Metais, cabos e líquidos se dispersavam nas minhas vistas.
Ainda querendo ajudar, o rapaz do posto de combustível me trouxe uma espécie de regador sem bico para que eu fizesse algo.
- Toma, moço. Água pro seu radiador.
Ao falar radiador, pensei em responder que com o meu rádio não tinha nada de errado. Nem rádio, nem dor. Eu tinha um Golf com rodas 17 e sonzeira nas quatro portas. Mas desde pequeno, meu avô havia me ensinado o valor do silêncio.
Fiquei quieto e peguei o regador de radiadores. As opções de tampas e reservatórios eram no mínimo três. Pra não passar vergonha, decidi colocar um pouco de água em cada um deles - questionar o que seria um radiador naquele momento colocaria toda minha reputação com Dalila em risco.
Só sei que entreguei seco aquele regador de radiador ao frentista. Percebendo o meu nervosismo frente ao capô aberto do carro, o frentista ainda foi esperto.
- Não esquece de calibrar os pneus, chefe. Quantas libras eu coloco aqui na máquina pro senhor?
- O de sempre - respondi como quem soubesse alguma coisa de calibragem e mostrando que eu também não estava de brincadeira.
Entrei no Golf, liguei o som, abri o vidro e coloquei o braço esquerdo pra fora.
Sentia que aquele ronco de motor 1.8 de origem mexicana tinha muito a dizer sobre minhas intenções com Dalila naquele fim de semana.
Assim que passamos dos 100 quilômetros de viagem, uma luz amarela acendeu-se no painel e um ponteiro no canto esquerdo começou a elevar-se a ponto de acender outras luzes vermelhas no painel.
- Tem alguma coisa errada com o carro, Cristiano? - questionara Dalila
- Não, gatinha. A luz amarela acende quando você dirige o carro com excelência. É como se fosse uma medalha, sabe? - tentei contornar a situação enquanto uma fumaça começava a tomar conta do capô.
Não liguei. Segui viagem, aumentei o som e tasquei um beijo em Dalila.
Com a boa sorte e os deuses que protegem os homens apaixonados, conseguimos chegar em Xangri-lá a ponto de ver o pôr do sol.
Deixei o carro estacionado na beira da praia, agradeci ao Olimpo e agarrei-me na mão de Dalila enquanto caminhávamos por onde as ondas terminam na areia.
Na madrugada, deixei Dalila dormindo esplêndida na cama da pousada e fui ver a quantas andava o Golf. Tentei dar partida: um estrondo. Estava tudo perdido. Decidi fazer uma oferenda em agradecimento ao sucesso da viagem. Sabia que voltar de Golf para Lajeado seria impossível - pelo menos com aquele. Havia sido vencido pelo pedantismo.
- Maldito regador de radiadores - pensei.
Sozinho e com o resto das forças que me sobravam após uma noite de paixão com Dalila, empurrei o carro mar a dentro. Fiquei vendo aquele sonho em quatro rodas indo embora ao encontro de Iemanjá.
No outro dia, acordei fazendo fiasco.
- Roubaram meu Golf. Roubaram ele. Roubaram ele sim! - mentia fingindo espanto e levando as mãos sobre a cabeça.
- Calma, meu pudinzinho. Logo nós vamos encontrá-lo. Vamos na polícia!
- Envolvi ela em meus braços e olhei firme em seus olhos.
- Tudo bem, Dalila. Quer saber? Com trabalho e honestidade, eu compro outro. Vamos aproveitar a praia e o que há.
Voltamos para Lajeado de ônibus, de mãos dadas e com as cabeças debruçadas uma sobre a outra olhando os rincões de paisagem pela janela em silêncio.
Hoje em dia eu não tenho mais Golf. Nem Dalila.


Cristiano Duarte

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