Colunistas

Paulo Sant'Ana

Cristiano Duarte, jornalista, [email protected]


Como era de praxe, volta e meia tinha uma turma de crianças de alguma escola que visitava a redação de Zero Hora para ver como viviam os jornalistas, do que se alimentavam e o que faziam. Não diferente de animais em zoológicos, acenávamos enquanto comíamos banana, biscoitos e bebíamos café.
Eis que uma voz infantil de menina anuncia.
- OLHA! É o Paulo Sant'Ana!
E lá vinha ele. Caminhava devagar com o apoio de uma charmosa bengala feita em madeira. No bolso da camisa floreada estilo anos 1970, o seu parceiro número 1: o maço de cigarro Lucky Strike de filtro vermelho. No bolso da calça jeans, um isqueiro Zippo de guerra.
Nos pés calçava um confortável tênis de corrida: daqueles com cores berrantes e faixas refletoras - desenhados mais para evitar um atropelamento na Avenida Ipiranga do que para serem vistos no Jornal do Almoço.
Paulo Sant'Ana, ou apenas Pablo, ou "Gênio idiota", como se autodenominava, já não mais ligava para a impressão que seus pés poderiam passar às pessoas em relação ao resto das roupas que vestia.
Era como se entre o seu corpo e a terra fizesse-se necessário um anteparo de Nike Shox para amaciar a caminhada dura que foi sua jornada de vida.
As crianças aguardavam ansiosas por uma palavra de Paulo Sant'Ana num dos corredores formados por computadores da redação. Ele seguiu caminhando olhando para frente e ao chegar no meio da turma, parou e fitou aquele mar infantil de crianças com olhos esbugalhados lhe vislumbrando como se tivesse superpoderes.
Sem falar nada, com sua cara torta e seu olho quase cerrado, "Pablo" olhou para aquela criançada toda e por um momento, talvez, tenha lhes imaginado tão velhos quanto ele. O que a vida proporcionaria a cada um deles no futuro: amores, desamores, vícios, jogos, vitórias, derrotas, mortes prematuras?
O olhar de cronista de Paulo Sant'Ana que sobrevivera a 47 cirurgias ao longa da vida era capaz de imaginar mil histórias e mil finais de novela para cada um deles.
Passou pela turma de crianças sem dizer nem oi ou sequer acenar com a cabeça e foi para o fumódromo da redação de Zero Hora que, por óbvio, se chamava Paulo Sant'Ana.
Na parede do fumódromo, um quadro com sua foto pitando e a seguinte frase "Fumar é uma tolisse e a vida é feita de tolisses", e a assinatura: Paulo Sant'Ana.
Ele usava mais o fumódromo para recitar as centenas de poemas que sabia de cabeça, falar do Grêmio ou apenas encontrar outros fumantes. Pessoas que utilizavam deste falso suspiro para aliviar o stress ou para falarem sobre as boemias e os exageros da noite anterior, pois não lhe era negado o direito de fumar em nenhum lugar. Não raro, se via Paulo Sant'Ana fumando na redação, no banheiro, no refeitório e, acreditem, no elevador.
Mas eis que houve um fatídico dia que tentaram proibir Paulo Sant'Ana de fumar. Era uma reunião com executivos da RBS numa sala vários andares acima da redação. Para reforçar sua marca, Paulo Sant'Ana chegou fumando seu cigarro de filtro vermelho.
- Por favor, Paulo Sant'Ana. Eu sei que você fuma em vários lugares dentro da RBS. Mas te peço que na minha sala, o senhor me respeite e não fume - anunciara um homem de gravata no gesto de tolher os prazeres de Pablo.
- Aqui na RBS? Eu fumo? Até na sala do NELSON SIROTSKY (na época, presidente do Grupo RBS) - respondera pausadamente Paulo Sant'Ana com o cigarro entre um dos dedos em riste.
- Mas aqui não é a sala do Nelson Sirotsky. Então, por favor, apague o cigarro - insistiu o executivo.
- AQUI NA RBS TODAS AS SALAS SÃO DO NELSON SIROTSKY - finalizou enquanto se aconchegava numa cadeira e dava-se por início a tal da reunião.
Em se tratando de vida, Paulo Sant'Ana tinha respostas para tudo. A sua genialidade incomodava e lhe tornava numa persona non grata pela maioria e muito amada por quem lhe conhecera de verdade e na intimidade. Por saber disso, publicou em 1992 o livro "O gênio idiota".
Mas no fundo, no âmago de cada um, amigos e inimigos, todo mundo queria ser um pouco "Pablo".


Cristiano Duarte

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