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Superbonder

Créditos: Cristiano Duarte
- Sgarbi

A miopia e o astigmatismo. Mazela que descobri aos 18 anos. Cheio de espinhas e sonhos. Logo que pude comprar bebidas no minimercado do Adamastor e dirigir a Brasília vermelha do meu pai.

Não conseguia ver direito a linha do horizonte (algo que percebi que mesmo com óculos ser ainda impossível, pelo menos na maioria das vezes). Daquelas coisas que acontecem entre um gibi do Batman, um livro do L.F Veríssimo e a legenda vista com os olhos apertados num filme com o Selton Melo.
A gente costuma começar pelos óculos mais discretos. O meu primeiro era um quadrado feito de plástico preto. Linhas finas de acetato. Afinal, não queria que eu estivesse na mesa de uma lancheria e o garçom perguntasse pro patrão:

- O suco de goiaba é do Renato Russo sentado ali fora?.
Ou pior:
- Pra quem eu dou o troco, chefe?
- É pro artista com cara de designer de interiores ali sentadito de pernas cruzadas.
Ou ainda: estivesse eu na balada e duas gurias olhassem pra mim no balcão do bar e começassem:
- Tô pensando em falar com aquele guri ali.
- Qual o do óculos de quem não faz sexo?

Deus me livre.

Vejo hoje, através das lentes e em cada uma das armações dos óculos que lhe sustentaram ao longo destes mais de 10 anos, como este simples objeto traduz o âmago, os gostos, os desejos e os anseios de um homem (ou de uma mulher, claro).

Ir até uma ótica e escolher o teu óculos nada mais é do que você revelar mais do que nunca quem você é. Não em vão, as óticas são lojas que vendem joias. Pois é isso que significa um óculos: uma joia que um míope e/ou um astigmata precisa adotar e incorporar coercitivamente ao seu estilo de vida.
Já o estilo de vida nada mais é do que as microdecisões tomadas em micromomentos de sua vida que ditam desde o alinhamento da tua coluna, as meias que escolhe e o gosto por camisas estilo Agostinho Carrara.

Foi uma luta de década até encontrar as "gafas" que representassem o que os meus olhos veriam em alta definição.
Achei meu par perfeito numa ótica de esquina na Rua dos Andradas, em Porto Alegre (a Porto dos Casais). Nada que não fosse apenas o destino. Discreto, mas com aquele toque de nióbio. Algo tirado do bolso da camisa do Agostinho Carrara enquanto lê uma Playboy no tablet no fundo de uma padaria na Benjamin.
Foram dois anos de amor. De lindas e homéricas visões compartilhadas. Eis que o tempo (e também o sereno) começou a desarticular as hastes dos meus óculos. Das vezes que ele caiu no chão ou que eu deitei por cima sem perceber que ele também estava no sofá.

Consertos aqui e ali. De Lajeado a Panambi. Meus óculos não aguentaram mais. Recorri à superbonder nos seus últimos dias de vida.
Nesse inverno, passei a andar com um pequeno alicate no bolso do blazer e um tubinho de bonder. Toda vez que as hastes quebravam, os pingos de cola serviam como um marca-passo para os óculos. Já respirando por aparelhos, decidi deixá-los para trás. Enterreio no fundo do baú das relíquias da vida que coleciono.
Não teve outro jeito. Tive que ir em busca do substituto.

Caminhei por toda o Júlio até que encontrei algo similar, mas jamais igual.
Experimentei. Mandei selfie pra namorada com o novo item.
Não estava legal. Havia um vazio naquilo tudo.

Chorei por um desconto. Consegui. Mas ainda assim, faltava algo para fechar o negócio.
Então, peguei o alicate do bolso e tirei as hastes dos novos óculos. Repousei ele na mesa e com a língua de fora coloquei pequenos pingos de superbonder na armação e nas pernas dos óculos novamente.

- Eu vou pagar à vista.


Cristiano Duarte

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