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A cultura da violência no trânsito

Carros não são feitos para matar, mas a centralidade que eles ganharam na nossa sociedade diz algo sobre nós, principalmente no que se refere sensação de poder


No dia 7 de setembro, um jovem de 20 anos perdeu a vida num incidente de trânsito, num atropelamento. As circunstâncias exatas estão sendo apuradas, para que o(s) responsável(is) sejam devidamente punidos. Quando esse tipo de violência atinge alguém próximo a nós, a dor nos leva a desejar uma resposta imediata e proporcional à nossa dor. Mas, infelizmente, esse não é um caso isolado, e nossa tragédia pessoal - que, em si mesma, é infinita - é um momento de uma tragédia social. Os números das mortes no trânsito superam os de muitos conflitos armados. As causas dessa "guerra civil" são muitas, mas quero me deter em um de seus aspectos.

Escrevi outro dia aqui neste espaço sobre armas, sobre as quais se costuma ouvir: "elas não matam sozinhas". Naturalmente, é preciso que alguém conduza um carro para que ele mate outra pessoa. Carros não são feitos para matar, mas a centralidade que eles ganharam na nossa sociedade diz algo sobre nós, principalmente no que se refere sensação de poder que eles transmitem aos seus possuidores e condutores. Nesse sentido, a publicidade tem sua parcela de responsabilidade, ao apresentar o automóvel como instrumento de poder social, sexual, econômico - ainda que não se possa separar completamente essas dimensões. Nossa fragilidade física - que fica evidente em um atropelamento - pode ser mascarada pelas centenas de quilos do automóvel. Com essa sensação de onipotência, nos damos ao luxo de beber e dirigir, por exemplo, pois pensamos ter tudo sob controle.

Quando as diversas sensações de poder passam a interagir, fico pessoalmente com a impressão de que algumas pessoas vêm os demais interagentes não como seres com os mesmos direitos de circular naqueles espaços, mas como obstáculos àquilo que desejam fazer. Muitas situações que são aceitas como normais no trânsito - buzinar agressivamente atrás de um carro parado na via, por exemplo - seriam tomados como falta de educação fora do trânsito - imagine alguém parar no corredor do supermercado e você começar a gritar atrás dela. A tensão da nossa vida coletiva tem se intensificado, e isso nos torna mais propensos a canalizar essa tensão sobre os objetos. É preciso, sem dúvidas, ações concretas e imediatas para os casos de violência no trânsito, mas não podemos dispensar a reflexão mais ampla sobre o que ela diz a respeito da nossa cultura, ou seja, sobre o que cada um de nós tem a ver com o atropelamento de um jovem de 20 anos.

 


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