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A idade

Cristiano Duarte, jornalista, [email protected]


Primeiro achei que fosse algum tipo de reação epidêmica de chikungunya. Todo mundo de olheira e com o sereno de uma vida transbordando pelos poros. Tipo propaganda de cigarros. 

- Fumar envelhece.

Pá! FOTÃO! Você coroa pensando no tempo de vida que perdeu olhando pro celular que nem um retardado.

Depois achei que eu tivesse hibernado e acordado depois de 30 anos. Antes fosse. Apenas mais uma destas febres cibernéticas. 

Filtro de envelhecimento nas fotos.

Amigos [e inimigos (claro, sempre muito importantes)] todos com cara de uva passa na linha do tempo do Facebook.

Uso este filtro tatuado no verso das retinas muito antes do Ayrton Senna ter se perdido naquela curva e no tempo em que mamães cuidavam dos tamagoshis dos filhos enquanto estes iam pra escola jogar Tazo. 

Foi uma das formas de autodefesa que encontrei para aceitar o próximo quando eu não gosto do próximo e ele está muito próximo. 

E só Deus sabe o que passo todas as manhãs ao amarrar os sapatos e pensar nos desafios de sobreviver mais um dia.

É o boleto, o crediário, o imposto de renda, as namoradas e um número DDD de São Paulo que te liga todos os dias e SEQUER TE VENDE ALGUMA COISA. A ligação simplesmente cai. Você saiu correndo banho pelado para atender o telefone e não ganhou e nem perdeu nada com isso.

Equilibrar alma, corpo e mente é tarefa difícil. Vai muito além de respirar fundo. Requer estratégia a la Sun Tzu para sobreviver.

Eu, por exemplo, passei a imaginar as pessoas mais velhas do que realmente são. Isso começou ainda na escola. Desde as professoras trintonas que me passavam sermões - munidas de bengalas, verrugas e artrose - aos topetudos patrões quarentões que encontrei no mercado de trabalho e passei a prospectar com reumatismos e calvícies reluzentes crônicas.

- Cristiano, você não vai receber aumento. Isso o que você faz é o mínimo que espero de ti.

Aí imagino o patrão velho. Sozinho, no más. De pantufa e alimentando os pombos no Parque dos Dick. Olhando o WhatsApp aos 69 anos sem receber uma mensagem sequer faz três meses. Largado de mão pelo mundo por ser ingrato. Morto de desgosto ou atropelado por um Uno aos 85 anos.

Mulheres. Aquela garota que tenta te colocar no bolso. Que tenta fazer com que você fique com 15 centímetros de altura pra te colocar na bancada da cozinha americana de um loftzinho no Universitário e te diz.

- Fica aqui. Te comporta. Você é meuzinho. Seja um bom rapazinho e agora sorria pra mim.

Aí imagino esta mulher na minha vida aos 70 anos. Será que vale a pena mesmo? Não, melhor não. E volto a ficar solteiro novamente.

Aumentar os anos de vida do outro no imaginário e nutrí-lo das vulnerabilidades que a idade traz foi uma maneira que encontrei para suportar o inadimissível.

Imaginar o futuro também é olhar para o retrovisor. O aplicativo da vida real que envelhece se chama tempo.

Tá, parei. 

Pareço um velho resmungão reclamando de tudo.


Cristiano Duarte

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