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Começou a campanha eleitoral

Créditos: Tiago Segabinazzi

"Há muito tempo a vida é difícil de entender, o mundo é algo injusto e o cotidiano é aquilo a ser suportado como passagem rumo ao que não conhecemos, mas sabemos que nos aguarda: dias melhores." Maldita música do Jota Quest que sintetiza a civilização ocidental e sua renúncia do hoje em nome do amanhã.

Nos apresentaram o caos como dado, nos ensinaram a correção como caminho e nos prometeram ao final um mundo justificado. Apontar o dedo para o que deve ser condenado de forma tão categórica e idealizar uma redenção só poderia convergir num ponto: a crença de que algum dia essa espera vai terminar. Um dia.

Perceber tanta desgraça incomoda e traz ansiedade pela vinda da salvação. Aquele que é iluminado, superior, perfeito - segundo determinados critérios. Aquele que nos resolve tudo e nos exige pouco: somente a adoração. Aquele que coloca ordem na casa, na sala, no rebanho. Terceirizamos a ética a um eleito. Nos livramos da responsabilidade individual. Isso é a representatividade. Abdicação. Abnegação.

Do alto da torre, olhando o horizonte, a princesa suspira a espera de seu príncipe, e o mundo que considera sua natureza impura espera de olhos fechados seu tirano. Quando as perguntas são mal formuladas, qualquer resposta do oráculo serve: a autoridade do especialista está menos em seu saber do que em sua espera. E assim se estabelecem o caminho certo, a opinião justa, a verdade.

Há aqueles que percebem a situação e se propõem a resolver este problema; se colocam como possíveis soluções, se oferecem: se candidatam.

Nesta disposição vem colada uma imagem ideal, um atributo que vem preencher os hiatos identificados, os problemas construídos, os demônios evocados. Eis que se materializam algumas entidades: o honesto; o pai dos pobres; o pacifista; o moral; o gestor eficiente; o humilde; o liberal de verdade; o corajoso.

Os delírios que causam o deserto só podem ser compreendidos por quem o habita.


Tiago Segabinazzi

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