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Desequilíbrios na Economia e uma Causa Comum

João Fernandes, economista


Os últimos anos não têm sido fáceis para a população brasileira: em 2015/16 tivemos a maior recessão econômica de nossa história e desde então o crescimento teima a voltar, o número de pessoas desempregadas ultrapassou 12 milhões, há exatamente um ano o país parou com uma das maiores greves já registradas e recentemente o dólar voltou a superar R$ 4,00/US$. Diferentes problemas, se observados sob diferentes óticas, contudo, são problemas que compartilham causas comuns ou, melhor dizendo, causa comum.

Se analisarmos qualquer nação no planeta, veremos que a força de suas economias reflete diretamente a percepção da sociedade sobre seus respectivos Estados _ no sentido abrangente da palavra, e não em referência a governos específicos. Países fortes possuem Estados sólidos, responsáveis, equilibrados, sustentáveis e que despertam a confiança da população que representam. Vamos analisar o caso do Brasil?

Desde 2014, o Estado brasileiro (governo federal, estados e municípios) gastou um total de R$ 550 bilhões a mais do que arrecadou, um rombo que foi pago através do endividamento público, que subiu em termos brutos de cerca de 50% do PIB para quase 80% do PIB, quase o dobro do que países emergentes como o Brasil em geral apresentam (Fonte: Banco Central).

Naturalmente, quem empresta seu dinheiro para o Estado conseguir financiar tamanho nível de despesas passou cada vez mais a suspeitar da capacidade desde último arcar com suas obrigações, passando a exigir juros mais altos para suprir o financiamento _ o que é bastante óbvio, dado o maior risco de o governo dar um calote. Juros mais altos, por sua vez, significam crédito mais caro para investidores e consumidores, implicando em menos investimentos e consumo. Além disso, a própria supracitada desconfiança com a solvência do Estado já é por si só um inibidor de investimentos, considerando seu impacto sobre a confiança geral com o futuro do país.

Para o leitor, imagino que já está clara a ligação deste contexto com a descrição dos últimos anos, feita no início desta coluna. (i) Menos investimentos e menos consumo explicam o baixo crescimento e o desemprego. (ii) A falta de confiança levou boa parte do capital que estava investido no Brasil a ir embora, pressionando para cima o valor do dólar. (iii) Dólar mais alto significa que o combustível importado pelos brasileiros ficou mais caro, algo que combinado com o descontentamento com o crescimento serviu para mobilizar a greve dos caminhoneiros em maio de 2018.

Não são fatores isolados: os problemas de hoje do Brasil encontram causa comum no desequilíbrio fiscal do Estado, isto é, no descompasso entre receitas e despesas e no aumento da dívida pública. A solução desta espiral perversa, portanto, fica clara, e deve vir o quanto antes: reformas estruturais que reequilibrem as contas públicas (como a da previdência social) e impeçam que o endividamento continue subindo, impulsionando assim a retomada da confiança na solidez do Estado brasileiro. Não é tarefa fácil, nem agradável, mas essencial.


João Fernandes

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