Colunistas

Dois de voz


"Eu conto uma história incerta; eu conto pra desabafar. Eu conto uma mentira certa; eu conto pra não acreditar." Ao invés de usar como epígrafe num artigo sobre fake news, trago estes versos como o próprio assunto deste texto - o álbum Dois de Voz, de Alessandro Cenci e Solon Chaves.
Há pouco mais de um mês, essa dupla de lajeadenses fez o lançamento oficial deste trabalho autoral de MPB e bossa nova - que não pode ser exatamente contido nestes gêneros; Morte certa, por exemplo, traz uma melodia de quem tem afinidade com o rock: "ter o hoje se isso é o que nos resta; ter a vida inteira morte certa".
Ouço a animada Parada certeira e imagino Gilberto Gil morando em Uruguaiana - a ideia não é medir artistas com a régua do que está consagrado, mas mostrar que o estado de espírito que a sonoridade alegre da canção traz é o que sinto quando ouço o baiano, com um ponteado de sotaque fronteiriço.
"Eu canto o que me der na telha; eu canto para te salvar. Eu canto o meu sonho torto; eu canto para aliviar. Eu ouço o som da melodia da cidade; e as luzes desse palco vasto de vaidade. É o que me faz mover; o que me faz... me faz acreditar."
Esta é Canto e conto, que vai terminando com o baixo de Solon desenhando notas que questionam o limite do sensual até a percussão esmaecer em silêncio; é a faixa mais curta do CD - maduro, pede mais do que dois minutos de atenção ao ouvinte. "Quanto mais aberta, mais a porta não nos deixa entrar", diz a música Eu, você e mais nada: ou seja, poderíamos pensar que facilitar demais a recepção de uma obra pode ser um convite a conhecer outra que tenha mais a oferecer.
Muito poderia ser escrito a partir das letras, ou, ao invés de descobrir algo na letra, talvez cobrir e recobrir a atmosfera criada, como em O silêncio do tempo, com seu "tu-din-dun-dan-dun-di-dun-don": qualquer letra ali, nesta métrica, serviria para causar algo. Afinal, como diz a faixa Bossa nossa, "não quero que tenha sentido em tudo; nem o intelecto de um cara obscuro"... "é muita palavra, falta o coração. É muito sermão e pouca oração".
Dois de voz. Dois de vós. E como disse meu amigo Xandão: dois divos.


Tiago Segabinazzi

Comments

SEE ALSO ...