Colunistas

Elogio da intolerância

Se há uma palavra que possa resumir o mundo de hoje ela se chama intolerância


"Se me derem um pedaço de plutônio

Minha turma se encarrega de explodir

A pobreza das ideias dessa gente

Que comanda os shopping-center do país..." Nei Lisboa


Se há uma palavra que possa resumir o mundo de hoje ela se chama intolerância.
Um mundo repleto de plataformas de comunicação se tornou paradoxalmente tribal, xenófobo e intolerante.
Criamos redes sociais para discutirmos e ofender.
Negros e brancos.
Católicos e islâmicos.
Árabes e judeus.
Homens e mulheres.
Homossexuais e heteros.
Motoristas e ciclistas.
Veganos e carnívoros.

Ninguém tolera mais ninguém que pense diferente da caixa onde vivemos.

Não queremos ouvir ninguém, mas queremos que nos deixem falar.

Então não é de surpreender essa ultima polêmica sobre a tal exposição de arte.

Para começar tudo se resolveria com uma mera classificação etária. Ou alguém em sã consciência acha que crianças podem discutir qualquer assunto?

Pelo outro lado adultos minimamente educados e que se propõem a discutir arte deveriam saber a diferença entre a realidade e seus signos ou símbolos...

Há ate uma disciplina que estuda a maneira como percebemos o que nos cerca e seus significados, a semiótica:

"A semiótica é um saber muito antigo, que estuda os modos como o homem percebe o que o rodeia."

"Ciência que estuda como o ser humano interpreta os vários elementos da linguagem utilizando seus sentidos e quais reações esses elementos provocam."
Logo a arte exposta pelo tal banco pode e deve ser contestada, discutida, boicotada ou elogiada, aplaudida e defendida.

São pontos de vista e dependem da educação dos nossos sentidos e da nossa visão de mundo.

Será que o tal banco foi covarde ao recuar e encerrar a mostra? Obvio que sim, afinal o dinheiro é covarde e bancos não vendem cultura, vendem dinheiro.
Bancos usam a cultura para encobrir seu negócio frio e calculista...

Mas não deixa de ser irônico assistir a esquerda brasileira defender um banco enquanto a direita o atacava.

Se olharmos para nossa cultura veremos que tudo no fundo é semiótica...

Hóstias não são o corpo de Cristo na realidade, simbolicamente sim. Uma hóstia escrita vagina pode não ser bela, mas pode convidar a refletir sobre a influência do catolicismo na sexualidade.
Brancos e negros copulando podem ser uma representação de como uma etnia pode ferrar a outra para não usar palavra pior.

Humanos fazendo sexo com um bicho pode ser uma metáfora de como consumimos animais...

E mesmo uma palavra como viada pode ter sentido diverso do que entende nossa vã ignorância:

"Menina que faz amizade melhor com gays, menina que apoia gays, menina que gosta de ver gays."

Enfim tudo é relativo.

Mas o que poderia ser uma discussão sobre arte e estética descambou para o mais rasteiro de nossa política e acabou indo para o raso da briga entre esquerda e direita.

Se foi a arte e ficou o pré-conceito.

É depravado, é feio disseram alguns ainda prisioneiros da estética.

Mas, "Para o animal, não há feiura [...].A noção de feiura é, por conseguinte, própria e característica da natureza humana e bem reveladora do homem. Não é à toa que o animal racional, dotado de sentido inteligenciado, é o centro da Estética." (José Antônio Tobias).

Será que ninguém pensou que a inteligência humana pode fazer algo feio não para agradar, mas sim para chocar?

"A Arte-Sabotagem (...) não [é] propaganda, mas choque estético (...). Assim como a destruição da ilusão eleva a consciência, a demolição da praga estética adoça o ar no mundo do discurso, do Outro. (...) Certas galerias & museus merecem, de vez em quando, receber uma tijolada pela janela [pois] galerias transformam beleza em mercadoria." (Hakim Bey)
No final a discussão toda serviu para mostrar algumas "Marias do Rosário" da direita nacional.

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