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Gratidão

Créditos: Flávio Meurer

Quando mais novo, eu gostava de "colecionar" as formas de agradecimento em diversas línguas. Encontrava alguém que tinha ido para um certo país e perguntava; às vezes, pescava a palavra num filme. Hoje, essa pesquisa não tem muita graça, pois é só ir no Google Tradutor e buscar. Não sei dizer exatamente por que escolhi essa expressão e não outra (um amigo meu colecionava formas de brindar), mas me lembrei disso porque conversava esses dias com outro amigo que brincava com o fato de que alguns grupos ligados a determinadas filosofias de vida estão usando a palavra "gratidão", em vez de "obrigado". Eu não saberia nomear com precisão esses grupos - hipsters, neo-hippies, sei lá -, mas é possível identificá-los dentro de um certo, digamos, "campo semântico": veganismo, movimentos ecológicos, filosofias orientais. (Por favor, se alguém fizer parte desses grupos e quiser se manifestar e corrigir, fique à vontade).

Imagino que, ao proporem uma mudança na forma de agradecimento, esses grupos pretendam fazer uma crítica ou uma tentativa de desconstrução do sentido que carrega a palavra "obrigado". Pela origem da palavra, ao agradecermos em português, admitimos estar em obrigação com a outra pessoa, contraímos com ela uma espécie de dívida, que, como tal, deve ser paga. Essa perspectiva me faz lembrar da análise que o crítico literário Roberto Schwarz fez da obra de Machado de Assis em Ao vencedor, as batatas!. Segundo ele, Machado descortina, em seus escritos, o laço social existente entre os homens livres no século XIX: o favorecimento e o apadrinhamento. Numa sociedade em que a economia girava em torno do trabalho escravo, os homens livres tinham poucas oportunidades de trabalho, tornando-se, assim, dependentes dos favores dos proprietários - um empréstimo, um emprego público. A contrapartida do favorecido era a dívida: agora, o homem livre sem posses deveria se sentir obrigado a retribuir tais favores, e esse crédito moral era o que alimentava o sentimento de superioridade da classe proprietária. Assim, poder prestar um favor era sinal de status e, portanto, algo em si mesmo socialmente desejável. Esse círculo de favorecimento-dependência teria seus reflexos na vida brasileira mesmo após o fim da escravidão _ até hoje?. Claro, isso aqui são hipóteses e especulações, mas é interessante pensarmos em tudo o que as palavras carregam e como seus usos podem dizer muito a respeito do que somos como sociedade e como indivíduos.

Pela sua atenção, gratidão.

Flávio Meurer, professor da Univates. [email protected]


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