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Lajeado com um coração no final


"A cultura serve para você dimensionar a ignorância alheia."
Millôr Fernandes

Essa semana que passou sete letras mexeram com nossa cidade. Sei disso porque gosto de ler comentários em redes sociais e em sites de jornais. Na maior parte das vezes acaba-se por confirmar o quê Umberto Eco falava, mas a vida é assim mesmo.
Só antes é preciso que se diga que nesses tempos de selfies e narcisismo digital muitas cidades criaram símbolos que possam aparecer nas fotos e torná-las imediatamente reconhecíveis.
É uma forma inteligente e barata de marketing turístico.
Amsterdam fez isso, mesmo a cidade já sendo uma espécie de cartão-postal ao ar livre.
Nova York também colocou seu nome em letras garrafais mesmo tendo a estatua da liberdade, o Central Park e a Brooklin Bridge. As pessoas vão lá, tiram fotos, publicam nas redes sociais e todo mundo fica sabendo que elas estão em Nova York.
Seus amigos vêm, os seguidores vêm e alguns serão certamente influenciados a conhecer o local que viram nas fotos. Lembrem que o turismo também se alimenta de promover os pontos turísticos.
Anos atrás, Lajeado tentou criar um símbolo visual da cidade. Foi feita uma estatua retratando o trabalho dos agricultores e ela foi colocada na antiga rótula da avenida Acvat. Pintada de verde, ela foi objeto de aplausos, críticas e ironias. Hoje, repousa quase esquecida na Pasqualini junto à saída da cidade.
No fundo ela representa bem o destino e o quase esquecimento dos nossos primeiros moradores. E também a importância que damos à arte.
Pois bem semana que passou a Prefeitura Municipal resolveu colocar um desses símbolos modernos junto ao Parque dos Dick. Em letras garrafais, está lá para quem quiser ver o nome da cidade: Lajeado com um coração no final no lugar da letra "O".
Singelo e até bobinho, mas adequado ao espirito desses tempos em que todo mundo tem uma câmera fotográfica na mão...
Alguns gostaram e aplaudiram, mas muitos ficaram desgostosos. Majoritariamente, pelo que li, porque imaginavam que o valor investido nas tais letras poderia ser investido em coisas materiais como creches, escolas ou postos de saúde.
A mim parece que, se pensarmos assim, só poderemos investir em arte ou turismo depois de termos saciadas todas nossas necessidades materiais.
Se assim fosse, gastos em museus de arte, esculturas, paisagismo, turismo e arquitetura teriam que ser sempre relegados ao depois de saciadas todas nossas necessidades físicas e materiais.
Mas não é assim. Mesmo nossos ancestrais mais primitivos, vivendo em condições de subsistência extrema dedicavam parte do seu tempo a pintar, esculpir, cantar ou somente admirar uma bela paisagem.
Nossas cidades não precisam ser feias só porque nossas necessidades básicas ainda não foram totalmente satisfeitas.


Marcos Frank

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