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O médico e o monstro vivem no mesmo país


Ele é cristão, ela é muçulmana. Ambos sírios, apaixonam-se e resolvem fugir para casar. Escolhem o Líbano para reiniciar a vida. Já são pais de Edward e concebem duas filhas - Maha e Souad Mamo - naquela que deveria ser a nova pátria. O drama aprofunda-se na tentativa de registrar as meninas. "Impossível!" - dizem-lhe. O casamento inter-religioso não é reconhecido pelo direito civil e os filhos, embora nascidos no local, são apátridas naquela terra de poeira e sol. Decidem empreender uma odisseia e partem do Oriente Médio. Cruzam Europa, atravessam o Atlântico e chegam ao Brasil. Encontram abrigo, mas não a legitimidade das filhas como seres humanos. Pelo menos, dessa vez, ganham o direito de lutar. Aí começa outra história, quando a inconformada Maha envia cartas sobre a sua não vida às embaixadas. Enquanto as respostas não chegam - e não chegam, mesmo - , encontra guarida em uma ONG mineira.

GRATA. As coisas mudam quando consegue espaço em uma reunião da Agência das Organizações Unidas para Refugiados - Acnur -, na Genebra. Maha emociona a todos com a exposição franca de sua condição de pária. Terminando o depoimento, Bernardo Laferté entra no salão, encaminha-se até ela e lhe entrega os documentos com a cidadania brasileira. Perplexos, agraciada e participantes do encontro ouvem um relato de Laferté, filho de refugiados também acolhidos pelo Brasil. Um mês após o evento feliz, Edward Mamo é assassinado por um assaltante em uma rua de Belo Horizonte. Questionada se a dor da tragédia lhe fizera gostar menos do Brasil, Maha disse ter ganhado o direito de ser alguém aqui. Amava essa generosidade e seria eternamente grata.

FAROESTE. 1. Quadrilhas tentam introduzir o faroeste para Rio Grande do Sul. Reedição adornada pelo chapelão do novo cangaço e violência. No início das semana, a pacata Ibiraiaras mergulhou no horror destituído da estética câmera lenta da ficção. Resultado: seis mortos - cinco criminosos e o gerente do Banco do Brasil - e dois assaltantes presos; dois. No início da madrugada dessa quarta-feira, a BM surpreendeu um bando juvenil em Arroio dos Ratos. O quatrilho foi abatido após perseguição e troca de tiros. Os jovens precoces para roubo a banco - atividade de bandido experiente - tinham idades entre 15 e 19 anos.
A população de Ibiraiaras aplaudiu a pronta resposta dos policiais militares. Reações semelhantes ocorrerão onde ações parecidas se repitam. A violência sistemática das quadrilhas aprofundou o sentimento de impotência e a operação, apesar das mortes, pareceu uma resposta justa da sociedade. É um êxito aparente com o poder de encobrir falhas terríveis do Estado e do cidadão. Enumero as evidentes: prisões que não ressocializam; regime semiaberto de ficção; e desagregação familiar que repassa crianças e jovens para o crime.

ESQUIZOFRENIA. Pindorama assusta ao brutalizar-se de alto a baixo - de Brasília a Ibiraiaras. É saqueada por políticos venais - ver Lava-Jato - e sofre uma pressão inédita de CEO's do crime, a partir de presídios transformados em escritórios. A saída tem sido equivocada por basear-se no pânico criador de "bunkers". E nada muda - melhor, só piora. Há uma revolução possível e se inicia na casa de cada cidadão. Com bons exemplos e solidariedade. Com a família e a cidadania assumindo seus lugares na vida das escolas.
Nossa história combina autoritarismo e omissão. Atentos bandidos organizam-se no primeiro grupo para agir com (como) autoridade sobre o segundo. Por enquanto, prevalece o círculo vicioso indutor de uma esquizofrenia social. Por um lado, o país abraça Maha, haitianos, sírios, senegaleses e venezuelanos. Pelo outro, trata mal os patrícios e logo passa a fazer o mesmo com os acolhidos. Reproduz a metáfora do médico e o monstro, mas alimenta o monstro, que avança na intenção de deixar "tudo dominado".
O Brasil não é caso para bala, mas para educação, ensino e participação. Minha e tua.

* Doutor Jekyll e senhor Hyde, personagem ("doppelgänger" - duplo) de O Médico e o Monstro, obra de Robert Louis Stevenson

Em tempo: ontem, no Ceará, tentativa de assalto resultou em 13 mortos - sete inocentes (senhor Hyde ganha força)


Gilberto Soares

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