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Redes sociais e individualismo

As redes sociais de internet fazem parte do impulso primordial de nossa espécie para buscar conexão


As redes sociais de internet fazem parte do impulso primordial de nossa espécie para buscar conexão. Só nos tornamos humanos porque somos absorvidos, desde nosso nascimento - e até antes - por uma rede coletiva de significados. Essa rede nos constitui, o que nos conecta simbolicamente ao grupo. Ou seja, somos em grande medida semelhantes aos que nos cercam. Só que, ao mesmo tempo, cada um de nós é distinto de todos os outros. Somos indivíduos - pelo menos é isso que a ideologia ocidental moderna nos oferece. Por ser necessária, a conexão com a coletividade foi, durante quase toda a história da humanidade, a justificativa para enredar o indivíduo: sua condição coletiva determina o que você é. A Modernidade representa uma ruptura com essa relação sociedade-indivíduo, afirmando que o sujeito pode e deve se autodeterminar. E, assim, somos - em tese - livres para ascender econômica e socialmente, mesmo que não sejamos nobres; somos livres para casarmos com quem quisermos, não com quem nossa família obriga; etc. etc.

Porém, a liberdade das estruturas sociais nos coloca, ao mesmo tempo, a tarefa de encontrar, por nós mesmos, um sentido para a vida: quem sou eu? o que eu realmente quero? A questão é que não podemos cancelar totalmente nossa conexão com o coletivo. Mesmo que eu me mude para uma ilha deserta, a língua com que penso é coletiva, não fui eu que a inventei. Assim, o sentido daquilo que sou ainda está fora de mim. As redes sociais de internet retratam esse conflito: quero mostrar quem eu sou, minhas particularidades, meu jeito único de ser, mas espero os likes e os comentários para garantir meu reconhecimento. Essa busca explica em parte as chamadas bolhas sociais, aquele grupo de contatos que pensam muito parecido comigo mesmo. Por isso também as pessoas se deixam levar por linchamentos (virtuais ou reais), porque fundir a vontade própria à do coletivo é algo tentador. Assim, parece, nesse sentido, não haver grande novidade nas redes virtuais. Elas são o retrato dessa ambiguidade, dessa tensão entre nossa necessidade de autenticidade e de fazer parte de algo maior que nós mesmos.


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