Colunistas

Um mundo de aparências


"O importante não é pensar; é ter expressão de pensador." Millôr Fernandes (1923-2012)

Essena O'Neill, uma australiana de 19 anos, aparecia em fotos para seus quase 650 mil seguidores com roupas da moda ou de biquíni, mostrando o corpo esbelto, maquiada e sorrindo. Para muitos jovens ela era a personificação da felicidade, tal como ela é conhecida hoje em dia: redes sociais, curtidas e comentários.

Até que seu comportamento nas redes sociais sofreu uma reviravolta. Subitamente ela apagou milhares de imagens e, nas que manteve, editou as legendas para revelar "a verdade" sobre as fotos: que recebeu dinheiro para postar as imagens, que precisou posar várias vezes até conseguir a foto perfeita e que sua vida mostrada na rede não é real.

Ela mesma explica o que a levou a tomar essa atitude. "Eu passei boa parte da minha adolescência viciada em redes sociais, na aprovação das pessoas, em status social e na minha aparência. As redes sociais são formadas por imagens inventadas e clipes editados que disputam espaço entre si. É um sistema baseado em aprovação social e curtidas, validação por visualizações e sucesso em número de seguidores".

Essena não conheceu o filósofo francês Guy Debord, um dos influenciadores do Maio de 1968 na França, mas certamente concordaria com as teses do autor do livro Sociedade do Espetáculo. Para Debord, as imagens contaminaram nossa experiência cotidiana, levando-nos a renunciar à vivência da realidade tal como ela é. "Toda a vida em sociedade virou um acúmulo de espetáculos individuais e coletivos, tudo é vivido apenas enquanto representação perante os outros". Quando Debord escreveu isso só existiam o rádio, as revistas e a TV estava em sua infância. Imagina o que ele teria dito se conhecesse o Facebook, o Twitter e o Instagram!

De 1967 para cá os palcos se multiplicaram, especialmente após a internet, e a plateia passou a ser cada um de nós. Compartilhar, exibir, curtir e postar selfies vieram como uma avalanche demostrando que o francês estava certo. Profeticamente Debord entendeu que o real envolvimento em relacionamentos humanos foi trocado por uma identificação passiva com a posição de espectadores recíprocos. Nesse esquema, cada um assiste, curte e compartilha o outro em seu palco particular, aguardando a sua vez de ser assistido, curtido e compartilhado.

Se, como bons seres sociais gostamos do exibicionismo, é natural que passemos a aceitar, falsear nossas habilidades e conquistas. É dessa forma que toleramos a ilusão ou em outras palavras, a mentira. Estimular socialmente a necessidade da mentira é uma decorrência lógica de uma sociedade do espetáculo, em que mentir é muito mais do que ocultar a verdade. Mentir passa a ser uma forma de agregarmos valor a nós mesmos.

Afinal após séculos de catolicismo identificando Deus com a verdade e o diabo com a mentira, cansado de tanta opressão religiosa o acidente matou Deus através de Nietzsche e o russo Dostoievski o enterrou: "Se Deus está morto, tudo é permitido"!
Tal frase foi a senha para os instintos entrarem em ação e nos dominar. Em seguida veio Freud com suas teorias do inconsciente e sobramos nós, as formigas com ego! E formigas manipuláveis, pois as teorias psicológicas foram usadas pelos soviéticos, pelos nazistas, pelos americanos e mais tarde pelos publicitários para manipular nossos desejos e induzir nosso comportamento a comprar ou a alinhar com determinada posição política.

Mais recentemente, depois dos publicitários, os meios de comunicação de massa passaram a vender a seguinte ideia: somos todos indivíduos únicos, especiais e merecemos brilhar. Passamos a ser protagonistas da nossa vida, do nosso espetáculo, com mais valor quanto mais seguidores tivermos.

Só que com tanta gente assistindo nossa performance de vida, " as relações escorrem pelo vão dos dedos", como diria Zygmunt Bauman o sociólogo do pós-modernismo. Segundo o autor de Amor Líquido, as relações amorosas deixaram de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências. Algo fácil de enxergar nesse mundo de separações e irmãos de pais e mães diversos.

Também ele refletiu sobre o hiper-consumismo dessa nossa época: "Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que essa receita está além do alcance de boa parte da população." E no Brasil ainda vai piorar com milhares de pessoas que ascenderam socialmente e passaram a consumir tendo de voltar à posição original.

O sociólogo foi adiante percebendo que além de consumistas, nunca temos tempo, pois vivemos uma época que abortou o tempo livre, o tempo não preenchido com o consumo de imagens, sons, gostos e sensações táteis. Estamos sempre ocupados e nos tornamos dependentes dos estímulos externos: as mensagens que chegam no celular, as redes sociais, o tablet e as conversas pela internet. "Vivemos um tempo em que estamos constantemente correndo atrás", diz Bauman. "O que ninguém sabe, é correndo atrás de quê."


Marcos Frank

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