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A cartada final

Daqui a alguns anos saberemos como a crônica irá tratar Lula e Dilma, com que olhos o futuro verá a dita "República de Curitiba"


"Brasília prova; os países também se suicidam." Millôr Fernandes (1923-2012)

A história do Brasil tem muito de seus eventos romanceados e enobrecidos. Dessa forma se retira o caráter humano das manifestações e ficam os acontecimentos com cara de eventos heroicos e grandiosos. Na prática não é bem assim.

A chegada da família real ao Brasil, por exemplo: pela primeira vez o povo ia enxergar tantos integrantes da nobreza europeia. Mais de dez mil pessoas em 58 navios levaram quase dois meses para chegar. E aqui aportaram esfomeados, sujos e carecas devido a uma infestação de piolhos.

O rei com a perna vermelha e inchada pela erisipela mal conseguia caminhar. À linda rainha imaginada por alguns, se contrapunha a realidade. Assim a descreveu sua contemporânea, a esposa do general francês Junot: "...a sua fealdade, seus cabelos sujos e revoltos, seus lábios muito finos e arroxeados adornados por um buço espesso, seus dentes desiguais como a flauta de Pã". "Não podia convencer-me de que ela era uma mulher e, entretanto, sabia de fatos nessa época que provavam fartamente o contrário."

Para tornar mais cômica a situação, as mulheres brasileiras ao verem as mulheres da corte carecas, correram aos salões da época para imitar a realeza europeia. Seguindo pela nossa história quando se fala na proclamação da independência se imagina o príncipe montado em um cavalo branco, garbosamente vestido e cercado de uma guarda.

Nada mais falso. Pedro subia a serra de Santos para São Paulo vestido como um tropeiro montando uma mula, animal que se prestava melhor para enfrentar a íngreme subida. Para completar uma diarreia lhe torturava com cólicas e evacuações frequentes. Mas de toda forma aquela inquietante dor de barriga acabou por resultar na independência de uma nova nação. Só que Pedro I, como ficaria conhecido o jovem que se transformava em imperador, era teimoso e logo entraria em conflito com a população.

Acabou por abdicar em 1831 em nome de Pedro, seu filho menor de idade que viria a ser o segundo imperador brasileiro e voltou para Portugal. Houve uma regência e depois um longo tempo de estabilidade. Mas soldados insatisfeitos com a vida civil depois da guerra do Paraguai e fazendeiros irritados com o fim da escravidão se reuniram para acabar com a monarquia. No final um marechal doente e cansado depôs quase sem querer um imperador velho, doente e cansado. A ideia de república ali nascida passou por mais de 120 anos sem nunca se concretizar.

E assim voltamos para hoje. Estamos em suspense, esperando o desfecho de uma das muitas crises dessa tal república. Daqui a alguns anos saberemos como a crônica irá tratar Lula e Dilma, com que olhos o futuro verá a dita "República de Curitiba" e como serão tratados pela história muitos dos anões morais que hoje infestam nossa política.
(Publicado originalmente em março 2016)

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