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Aqui se fala... (parte II)

Na história recente do Brasil tivemos uma série de escândalos após o fim do governo militar e já depusemos dois presidentes legalmente eleitos


"Aqui é apenas adequado dizer que o desaparecimento das Nações não nos teria empobrecido menos do que se todos os homens tivessem se tornado idênticos, com uma única personalidade e um único rosto. As Nações são a riqueza da humanidade, suas personalidades coletivas; a menor das quais veste suas próprias cores especiais e porta dentro de si uma faceta especial das intenções divinas."
(Aleksandr Solzhenitsyn, Trecho do discurso quando do recebimento do Nobel de Literatura em 1970)

Políticos são constantemente provocados a dar sua opinião sobre os mais variados assuntos, alguns agradáveis, outros espinhosos. As vezes suas frases entram para história como uma antevisão do futuro, outras como hipocrisia.

Na história recente do Brasil tivemos uma série de escândalos após o fim do governo militar e já depusemos dois presidentes legalmente eleitos.

João Baptista Figueiredo, o último general presidente afirmou: "Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar. "

E não é que logo na primeira eleição direta que tivemos, elegemos Fernando Collor de Mello. Tão logo eleito o caçador de marajás prometia: "O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos." Ao fim terminou como bem se sabe...

Lula, o candidato derrotado por Collor foi perguntado em 1993 sobre seus sentimentos por Collor: "Não é que eu tenho pena. Como ser humano eu acho que uma pessoa que teve uma oportunidade que aquele cidadão teve de fazer alguma coisa de bem para o Brasil (...) E ao invés de construir um governo, construir uma quadrilha como ele construiu, me dá pena, porque deve haver qualquer sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro do Collor. "

E para provar que a história pode ser realmente irônica, em 12 de dezembro de 1994 o STF absolveu o Collor.

No dia seguinte, essa foi a repercussão da decisão:

Luís Inácio Lula da Silva, candidato derrotado do PT à presidência: "Como cidadão brasileiro que tanto lutou para a ética prevalecer na política, (...) estou frustrado, provavelmente como milhões de brasileiros."

José Dirceu, deputado federal (PT-SP): "É um desastre que significa praticamente a permissão para a prática do crime no país. Provas e testemunhas existiam e foram desconhecidas pelo STF."

Os anos passaram, FHC foi eleito presidente em seguida ao sucesso do plano Real e em 1997, o então presidente Fernando Henrique Cardoso mobilizou o PSDB para aprovar a emenda da reeleição, que lhe garantiria mais um mandato.

Hoje, após 20 anos, a reeleição virou uma espécie de "patinho feio" do legado de FHC, no entanto tanto Dilma quanto Lula não abriram mão da possibilidade de reeleição com o poder da máquina pública na mão. Perguntado sobre a aprovação da emenda da reeleição FHC saiu-se com esta frase: "As relações com o Congresso nem sempre ocorrem com a assepsia que a população espera."

Os anos passaram, Lula finalmente se elegeu e enfrentou em 2005 uma crise política que ficou conhecida como mensalão. Pressionado pelos fatos, Lula respondeu na abertura do IV fórum global de combate a corrupção: "Tenho uma biografia a preservar, um patrimônio moral, uma história de décadas em defesa da ética na política. Por isso, não vamos acobertar ninguém, seja quem esteja envolvido. Digo que cortaremos na própria carne, se necessário."

Na defensiva e com medo de sofrer impeachment Lula prometia investigar e punir: "O corrupto deve ser sempre punido. Seja quem for, venha de onde vier, seja adversário ou aliado." "Não deixaremos pedra sobre pedra, iremos investigar".

Os anos passaram e aos poucos vamos conhecendo a diferença entre as palavras do maior homem público brasileiro vivo e suas ações.

Da mesma forma ainda estamos na fase de conhecer a retórica do presidente americano Donald Trump. Na última semana ele subiu o tom:

"Se os Estados Unidos precisarem defender a si ou aos seus aliados, nossa única alternativa será a de destruir totalmente a Coreia do Norte. "

Quem achou a frase forte demais ou fascista por certo desconhece a história do século XX.

É celebre, por exemplo, a frase de Churchill ainda no começo dos anos 30 sobre a ascensão do nazismo:

"A Alemanha está ficando forte demais: teremos de acabar com ela."

A Alemanha todos sabemos como acabou, a dúvida é como a Coreia acabará.

Mas é certo que seu fim marcará o fim das ilusões de um mundo sem fronteiras.

 

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