Colunistas

Cesariana, a cirurgia maldita

Marcos Frank, neurocirurgião


"Para a mulher sentenciou o Senhor: Multiplicarei grandemente o teu sofrimento na gravidez; em meio à agonia darás à luz filhos..." Genesis 3:16

Estamos na Suíça por volta do ano 1500 e o criador de porcos Jacob Nufer está desesperado. Sua esposa há dias está em trabalho de parto, já há mais de 13 parteiras na casa e apesar de todas as tentativas não há sinal de progressão do bebê. Num ato extremo, Jacob pede permissão as autoridades locais para abrir a barriga e o útero de sua esposa e tirar de lá o filho teimoso.
Ele consegue salvar a vida dos dois e conta a história que apesar das circunstâncias sua esposa ainda deu a luz mais cinco vezes e o bebê salvo pela cirurgia, teria vivido até os 77 anos de vida.
Esse é o relato da primeira cesariana realizada com sucesso. Sua veracidade, no entanto, é colocada em dúvida, pois Jacob, apesar da experiência com animais, não dispunha de conhecimento para controlar o sangramento nem material adequado para suturar o útero aberto ou controlar a infecção.
Para efeitos de comparação há uma estatística francesa relatando que nenhuma mulher sobreviveu às cesarianas realizadas em Paris entre os anos de 1787 e 1876. Isso torna a narrativa suíça ainda mais improvável.
E mesmo o próprio nome da cirurgia, uma alusão ao fato de Júlio César ter nascido de "cesariana", carece de verdade histórica, já que sua mãe Aurélia foi descrita como tendo vivido o suficiente para ouvir os relatos de seu filho sobre a invasão à Inglaterra, fato incompatível com uma cesariana com as condições da época.
Durante muitos séculos a engenhosidade humana pouco auxílio trouxe aos partos. Ainda que o nascimento fosse o ponto mais alto da fertilidade e por isso protegido pelo direito canônico, os partos estavam associados a dor, ao sofrimento e a morte.
Na Idade Média, parir era considerado um evento tão arriscado que a Igreja Católica recomendava às mulheres grávidas que preparassem sua mortalha e confessassem previamente seus pecados para o caso de morte durante o parto, uma possibilidade assustadoramente frequente.
Não raro, dificuldades na progressão do parto normal acabavam por matar mãe e filho. A cesariana nos seus primórdios era uma solução final e visava tirar um feto vivo de uma mãe moribunda ou mesmo morta ou então separar os dois corpos para que pudessem ser enterrados em separado.
A outra opção, ainda mais terrível era a craniotomia, um procedimento que fragmentava o crânio fetal para que ele pudesse ser retirado via vaginal.
O tempo passou e na metade final do século XIX, as condições técnicas já existiam para que finalmente o progresso chegasse a obstetrícia: o clorofórmio já era uma realidade, a anatomia era bem conhecida e já havia materiais confiáveis para as suturas internas. A grande oposição vinha da igreja católica que agarrada a bíblia dizia que o parto não poderia ser separado da dor.
O empurrão final veio com a poderosa rainha Victória que teve seus dois filhos sem sofrimento através do uso da anestesia e ajudou assim a pôr fim ao mandamento bíblico que impunha a dor como condição essencial para o nascimento.
Resolvida a técnica cirúrgica restavam ainda as temidas infecções pós-operatórias. Tudo mudou após a grande descoberta de Fleming, a penicilina, passar a estar disponível. Com isso foram desaparecendo as parteiras e o nascimento passou das casas para os hospitais. Em 1938 metade dos partos americanos ocorria em hospitais. Vinte anos depois esse número subiu para mais de noventa por cento.
No início essa ida para os hospitais, tanto no parto normal quanto no cirúrgico, afastaram os pais da cena do nascimento dos filhos. Dentro dos hospitais mais e mais tecnologia foi trazida para a gestação: sonares, testes cromossômicos e monitorização fetal fizeram mudar o foco da atenção da mãe para o bebê.
As cesarianas reduziram drasticamente a mortalidade materna e fetal bem como as sequelas perinatais, mas mesmo assim tanta novidade trouxe críticas. A segurança e a comodidade de um parto com hora marcada fizeram explodir o número de cesarianas e cada vez mais pessoas se perguntam se não há exageros na indicação desses partos cirúrgicos e se não se está a desprezar a velha mãe natureza.
Tão longe a medicina foi no uso do bisturi que alguns movimentos mais radicais já estão levando os partos para casa e ressuscitando a figura das parteiras e trocando segurança por tradição.
É o velho mundo dando suas voltas...

 


Marcos Frank

Comments

SEE ALSO ...