Colunistas

Conversando com os mestres

Marcos Franck


"Nós precisamos entender melhor a natureza humana, porque o único perigo 
real que realmente existe é o próprio homem." Carl Gustav Jung (1875-1961)

Durante um período de cinco anos, a partir de 1907, Freud e Jung trabalharam juntos, e acreditava-se que Jung seria o único que continuaria o trabalho de Freud. No entanto, pontos de vista e temperamento terminaram sua colaboração e, eventualmente, sua amizade. Em particular, Jung desafiou as crenças de Freud em torno da sexualidade como fundamento da neurose. Ele também discordou dos métodos de Freud, afirmando que seu trabalho era muito unilateral. Mas romper com Freud teve consequências para Jung. Freud fechou seu círculo íntimo para o jovem, e outros na comunidade psicanalítica também o evitavam. Em 1914, ele se demitiu da Sociedade Psicanalítica Internacional e continuou destemido no desenvolvimento de suas ideias. Durante grande parte de sua vida posterior, Jung viajou pelo mundo para estudar diferentes culturas. Ele publicou extensivamente sobre suas descobertas, sendo autor de cerca de 200 trabalhos sobre suas teorias, incluindo O homem moderno em busca de uma alma (1933) e The undiscovered self (1957). Ele também possuía cátedras na Politécnica Federal de Zurique e na Universidade de Basel.As ideias de Jung continuam a ressoar hoje, em campos tão variados quanto arqueologia, religião, literatura e até cultura pop. O senhor foi o discípulo dileto e depois o desafeto de Freud. Em que assunto vocês destoavam? "Freud nunca se interrogou acerca do motivo pelo qual precisava falar continuamente sobre sexo, porque esse pensamento a tal ponto se apoderara dele. Nunca percebeu que a 'monotonia da interpretação' traduzia uma fuga diante de si mesmo ou de outra parte de si que ele teria talvez que chamar de `mística'. Ora, sem reconhecer esse lado de sua personalidade, era-lhe impossível pôr-se em harmonia consigo mesmo.(...) Ele tornou-se vítima do único lado que podia identificar, e é por isso que o considero uma figura trágica: pois era um grande homem."
E qual é a sua opinião sobre sexualidade?
O conflito entre ética e sexualidade, em nossos dias, não é uma mera colisão entre instintividade e moral, mas uma luta para justificar a presença de um instinto em nossas vidas e para reconhecer neste instinto um poder que procura sua expressão, e com o qual, manifestadamente, não se pode brincar e que, por isso, também não quer se submeter às nossas bem-intencionadas leis. "
Qual a causa, no mundo de hoje, de tanto sofrimento emocional e tanta procura por atendimento psicológico ou psiquiátrico?
"Tenho visto as pessoas tornarem-se frequentemente neuróticas quando se contentam com respostas erradas ou inadequadas para as questões da vida. Elas buscam posição, casamento, reputação, sucesso externo ou dinheiro, e continuam infelizes e neuróticas mesmo depois de terem alcançado aquilo que tinham buscado. Essas pessoas encontram-se em geral confinadas a horizontes espirituais muito limitados. Sua vida não tem conteúdo ou significado suficientes. Se têm condições para ampliar e desenvolver personalidades mais abrangentes sua neurose costuma desaparecer."
Estamos nos tornando muito materialistas e pouco espirituais?
"Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente que o "padrão de Deus" existe em cada homem, e que esse padrão é a maior energia transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo. Encontre esse padrão em você mesmo e a vida será transformada."(...) "Não sei dizer como é um homem que desfrute de completa autorrealização porque nunca vi nenhum. Antes de buscar a perfeição, devemos viver o homem comum, sem automutilação"(...) "Só que muitas pessoas vão fazer qualquer coisa, não importa o quão absurdo, para evitar olharem para suas próprias almas."
Qual o objetivo do tratamento psicológico?
"O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade"(...) Afinal, "O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o."
Por que é tão difícil mudarmos nosso comportamento?
"Nós não podemos mudar nada sem que primeiro o aceitemos."(...) E "O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera." (...) 
Finalmente: "Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos."


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