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Fim de ano ou fim de mundo?

Todo final de ano é a mesma coisa. Chega o Natal e o Ano-Novo e boa parte das pessoas não sabe como lidar com os sentimentos provocados por essas datas.


"Ano novo, pois é. Coisa bem velha." Millôr Fernandes (1924-2012)

Todo final de ano é a mesma coisa. Chega o Natal e o Ano-Novo e boa parte das pessoas não sabe como lidar com os sentimentos provocados por essas datas.

Uns ficam eufóricos e animados achando que essa é a época de comprar, brindar e fazer festa. São obviamente os preferidos pelo comércio, a presa ideal.

Outros se vêm repentinamente esgotados e tristes. Não entendem como os primeiros podem fazer tanta festa e pior, não conseguem sintonizar com essa onda de euforia que a mídia insiste em alardear. Sentem-se como uma espécie de estranho no ninho.

Também temos aqueles com motivos óbvios para estarem aborrecidos. Sendo o natal uma festa familiar, os que não estão em paz com pais, irmãos ou outro parente qualquer se sentem deslocados. De forma semelhante no ano novo, uma festa mais pagã que cristã; pobre daquele que não têm uma boa turma de amigos para esperar a meia-noite chegar.

Essa é pois, uma época de afetos exagerados. E sendo a neurose uma espécie de retardo no desenvolvimento da afetividade, não seria demais dizer que essa é uma época do ano... neurótica.

Explico melhor. Desde que nascemos ocorre uma expansão da consciência. O nosso crescimento físico e mental exige que paulatinamente amadureçamos. Quando tal não se dá, percebemos em alguns indivíduos atitudes incompatíveis com a idade cronológica. Posso rapidamente pensar em Maradona ou Sérgio Malandro para exemplificar. Se crescemos e nossos afetos e atitudes permanecem num nível infantil, está aí o conflito que é a base de toda neurose.

Mas voltemos ao Natal. É uma data que claramente pertence à cristandade. Trata-se da comemoração pelo nascimento de alguém especial. E apesar da história estranha entre Maria, José e o anjo, é sem dúvida uma celebração familiar, no máximo tribal. O ato de trocar presentes nessa época é que agradou ao comércio. E aos comerciantes é interessante que nos mantenhamos todos na infância ou no máximo na adolescência da vida, desejando e comprando, inconscientes e felizes.

Por isso nesses dias experimenta-se mais que em outros, sentimentos contraditórios. Pequenas bobagens, como uma fechada no trânsito, viram casos de vida ou morte. Ou então se verifica uma espécie de falta de seriedade, algo brincalhão, quando não etílico, que esconde as dificuldades reais. Nossos afetos regridem. Facilmente oscilamos entre o bobo da corte e o homem das cavernas.

Se isso acontece e sempre aconteceu em todo mundo ocidental parece que tudo ficou pior no nosso Brasil.

Aqui tivemos anos de governantes estimulando o ressentimento, termo esse que designa um fenômeno do gênero do rancor, ódio, cólera e sede de vingança, que surge no homem em função de uma ofensa ou agressão, diante da qual ele não pôde reagir de forma imediata e nem tampouco assimilar os sentimentos mórbidos decorrentes daquela agressão.

No Brasil do ressentimento todos são coxinhas ou petralhas, pretos ou brancos, não há espaço pessoal para a honra ou o trabalho bem feito, tudo e todos são suspeitos de pertencer a um partido ou quadrilha.

Sem o devido equilíbrio vamos assistindo as pessoas se digladiar nas arenas virtuais até mesmo por pinheirinhos e renas.

Difícil achar que nesse clima consigamos achar uma solução para o país nas urnas.

 


Marcos Frank

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