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Uma sociedade em chamas

Quem atende emergências precisa entender da psicologia humana também


O Hospital Bruno Born de Lajeado tem aproximadamente mil funcionários. Em média cada um deles é treinado 40 horas por ano.

Cerca de 300 médicos atendem, trabalham ou podem internar seus pacientes nas dependências do hospital seja para dar um analgésico ou realizar um transplante.

Em 2017, 39.010 pessoas foram atendidas no Pronto Atendimento, 24 horas por dia, 365 dias por ano. No mesmo ano, para atender pacientes eletivos, urgências ou emergências foram realizados mais de 100 mil exames de imagem sejam raio-X, ecografias, tomografias ou ressonâncias. São 12 exames a cada hora, todas as horas, todos os dias do ano.

Tenho que dizer que ninguém na cidade de Lajeado trabalha mais horas ou fica aberto mais tempo que o Hospital Bruno Born. Há quem empate conosco como a Brigada Militar, a Policia Civil ou os Bombeiros. Como nós, também são instituições que trabalham em situações limites. E são também alvo de criticas, algumas justas, muitas injustas.

Como aconteceu com nosso Pronto Socorro. Tão ruim quanto o ato criminoso foi ler pessoas da comunidade fazendo apologia ao crime e ao criminoso.

Nesse mesmo Pronto Socorro são recebidos os pacientes mais graves de uma região com mais de 350 mil habitantes foram realizados mais de 12 mil atendimentos em 2017. Nesse local, milhares de patologias graves foram estabilizadas para depois serem salvas em outras áreas do hospital.

O Pronto Socorro é o local mais tenso de um hospital. As UTIs e o bloco cirúrgico também recebem pacientes graves e muitas vezes instáveis, mas não com a dramaticidade de quem chega da rua.

Quem trabalha no Pronto Socorro acostuma-se com as freadas de carros que chegam em alta velocidade trazendo alguém desfalecido. Aprende a conviver com o ruído das sirenes anunciando que algo grave está chegando. Quem trabalha ali não estranha as batidas fortes e desesperadas na porta de acesso.

Ali é a área mais estressante de um hospital. Também é o local onde as equipes precisam aprender a endurecer o coração para não se abalar com uma avó, um pai, um jovem ou uma criança que não resistiram a uma patologia ou a um ferimento.

Esse também é o local onde mais se convive com ameaças de familiares ou com o medo do crime organizado. Ali desaguam o stress, a desagregação familiar, a violência urbana da nossa sociedade. Não creio que seria demasiado pedir um pouco mais de empatia com quem trabalha nessa área.

Manter essa estrutura gigantesca aberta todos os dias do ano, prover equipes de plantão, contar com especialistas na retaguarda custa caro para o Hospital Bruno Born. Afinal muitos pacientes que entram por essa porta precisam de cirurgias, de materiais especiais ou longas internações em unidades de cuidados intensivos.

E os valores pagos são pífios: para um eletrocardiograma que custa R$ 86 são pagos apenas R$ 5. Para uma consulta de especialista que custa R$ 126 apenas R$ 6,30 são restituídos.

A cada mês faltam R$ 660 mil para fechar as contas dessa unidade. Ao final do ano são mais de R$ 7 milhões retirados de um caixa já exaurido pelos longos anos sem reajustes das tabelas do SUS.

Mas o velho Pronto Socorro resiste. Resistiu até a um feroz, covarde e selvagem ataque com fogo. Dois dias depois da monstruosidade esse gigante já estava de novo aberto.

Abalado mas atendendo 24 horas por dia, ainda que sem entender porque um trabalho tão difícil, tão sacrificado e obvio, às vezes ríspido ou demorado, possa angariar simpatizantes para quem lhe agrediu de forma tão covarde.

Quem atende emergências precisa entender da psicologia humana também. Precisa muitas vezes respirar fundo e lembrar da frase de Umberto Eco tão reveladora desses tempos de julgamentos sumários e linchamentos das redes sociais: "El drama de Internet es que ha promovido al tonto del pueblo como el portador de la verdade".

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