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A sociedade, o consumo e a formação do gosto

Portar determinado objeto de determinada marca nos insere assim em um grupo de "iguais", cujo único critério para a entrada no grupo é o poder de compra


Chegando a época do Natal começa um momento de euforia no comércio com o aumento nas expectativas de vendas. Fenômeno importante que se repete anualmente nesta época com o recebimento do décimo terceiro salário e as festas de final de ano. Neste período de crise, a injeção de recursos na economia mais que bem-vinda, é necessária.

Disciplinas como a sociologia e a antropologia, que estudam o comportamento humano, assinalam que consumimos desde que nascemos. O ar que respiramos é um tipo de consumo, os alimentos também são por nós consumidos. Mas parece que consideramos "consumo" apenas aquilo que não se enquadra nas nossa necessidades básicas e fundamentais. Consumo, desta perspectiva, seria adquirir bens, bolsas, sapatos, carros, motos, colares e bijuterias, etc. O sentido deste consumo teria como elemento principal a diferenciação social. Através daquilo que consumimos formamos nossas identidades e nos associamos a certas tendências. Portar determinado objeto de determinada marca nos insere assim em um grupo de "iguais", cujo único critério para a entrada no grupo é o poder de compra.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu estudou a formação do gosto em nossa sociedade. A partir do estudo sobre a França ele procura explicar como se desenvolvem as preferências e os gostos das pessoas, seja por obras de arte, ou por escolhas vestimentares, também pelo tipo e qualidade dos alimentos que ingerimos. O autor afirma basicamente que o gosto é formado pela combinação complexa entre nível de estudo formal, ou seja, grau de instrução, e também pelo ambiente familiar no qual as pessoas são criadas. Neste sentido, a família e a escola possuem grande papel na formação do gosto e das escolhas dos futuros adultos. Portanto, educar seus filhos vai além de colocá-los na escola, mas em criar um ambiente propício para que desenvolva o gosto por museus, por boa música, pela leitura de livros. Atualmente é frequente vermos os pais reclamando que seus filhos não leem livros, e que passam o dia na frente da tela de seus smartphones e tablets, entretanto precisamos nos perguntar quantas vezes em casa o filho vê o pai ou a mãe lendo um livro, ou longe de seus telefones portáteis.

A formação de nossos gostos e preferências dizem muito sobre a nossa sociedade e o sentido que atribuímos para aquilo que consumimos. Por isso cada vez mais, datas como o Natal tem se secularizado, tornando festas de celebração do consumo. Através da troca de presente se reafirmam laços de amizade e afetividade, se celebram alianças e esperanças de um futuro mais próspero. Na sociedade capitalista, a possibilidade de ser um consumidor torna-se dimensão fundamental do exercício da cidadania, talvez a dimensão mais provável e acessível para muitas pessoas na atualidade.

 

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