Colunistas

A tragédia e a comédia

"Também é apropriado refletir sobre o papel da grande mídia no cenário político nacional"


A pauta monotemática dos jornais televisivos e das time lines da internet tem sido as delações do presidente da JBS sobre a participação de Temer e Aécio Neves nos esquemas de corrupção na famosa "Operação Lava jato". Na verdade não há surpresa nas revelações. Talvez a maior surpresa seja o fato de elas terem vindo da renomada Operação e terem sido divulgadas pela Rede Globo, uma semana depois de um depoimento do ex-presidente Lula em que alegava de forma veemente que estava sendo vítima da maior perseguição política jamais vista neste país.

Cabe perguntar o que mudou depois do depoimento de Lula, também é apropriado refletir sobre o papel da grande mídia no cenário político nacional, bem como nas relações complexas entre executivo, legislativo e judiciário. Uma vez comprovadas as denúncias de implicação do atual presidente, parece que não há outra alternativa além da destituição do cargo. Neste caso os especialistas explicam que um dos cenários possíveis é que o presidente da Câmara (também implicado em suspeitas de corrupção) assuma provisoriamente e que sejam convocadas eleições indiretas dentro de trinta dias. O que podemos esperar de eleições indiretas no contexto atual?

Na Grécia antiga o teatro surge em homenagem a Dionísio deus profano do vinho, da transformação, da metamorfose e do êxtase. Os rituais dionisíacos foram se transformando e se constituíram em dois gêneros a tragédia e a comédia. Para os autores clássicos a tragédia era considerada como o gênero mais nobre, tratando da vida de deuses e heróis, suscitando sentimentos de terror e piedade no público. Nas tragédias o herói sofre sem culpa, como se estivesse predestinado ao sofrimento, algo que vemos nos discursos dos políticos, que se sentem perseguidos injustamente por um judiciário acusado de parcialidade de todos os lados. Já a comédia, de outro modo, era considerada um gênero literário menor, falava da vida de pessoas comuns, e era apreciada pelo grande público. Na comédia antiga se costumava satirizar tanto personalidades vivas quanto mortas, satirizavam-se heróis e inclusive os deuses, tendo deste modo sua existência associada à democracia.

Os paralelos entre a tragédia de nossa política e a comédia que impera nas redes sociais sobre os fatos recentes exprimem faces de um momento político singular. Que nossa capacidade de rir da vergonha que se tornou nossa política não nos engane em face de um cenário político incerto.

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