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Precisamos falar sobre o racismo na região

Durante minha fala uma das meninas negras começou a chorar, soluçava, uma menina de provavelmente apenas 11 anos


Poucos dias atrás, a convite de uma escola da região, fui conversar com grupos de estudantes do ensino fundamental da rede pública sobre humanização. A relevância da temática e a convicção de que o conhecimento acadêmico é de pouca serventia se ficar restrito ao interior dos muros das universidades me fizeram aceitar prontamente o chamado. Falar com crianças e jovens é uma experiência interessante para quem costuma trabalhar com adultos, pensamos que por serem crianças, elas possam ser mais abertas e menos marcadas pelos preconceitos tão comuns aos mais velhos. Na ocasião estava acompanhado de estudantes do curso de Direito e Psicologia do projeto de extensão Interfaces.

Começamos falando sobre bulliyng, que parece corriqueiro entre as crianças e jovens, a tal ponto que se pensa que é "natural" que ocorra este tipo de prática. Entretanto, se para os algozes e cúmplices a estigmatização do outro é percebida como uma mostra de superioridade, para quem é vítima da ofensa os prejuízos podem ser diversos, desde a perda de vontade de frequentar a escola, o isolamento social, até casos de autoflagelo e no caso extremo o risco à própria vida. Durante a dinâmica que realizamos uma das temáticas era sobre as relações raciais. Depois de passarmos um vídeo para sensibilizar as crianças começamos a falar sobre racismo e preconceito. Na sala, entre os cinquenta alunos presentes, havia duas meninas negra e duas morenas, os demais se repartiam entre mais ou menos brancos, como é a média da região. Falei que estamos em uma região colonizada por alemães e seus descendentes, também descendentes de italianos, afrodescendentes, descendentes de açorianos e indígenas que historicamente habitam o Vale, e que recentemente estamos nos tornando mais diversos com a chegada de novos imigrantes, que o fato de se valorizar a descendência alemã ou italiana não acarreta necessariamente a desvalorização dos outros grupos, ou o preconceito dirigido preferencialmente a negros e indígenas. Pelo contrário, o fato de termos diversas contribuições é o que nos faz mais fortes.

Durante minha fala uma das meninas negras começou a chorar, soluçava, uma menina de provavelmente apenas 11 anos. Seu choro foi como um pedido de socorro, em que exprimia sem palavras as dores da violência cotidiana. A escola não pode, ou não deve ser o local de reprodução das desigualdades, pelo contrário, dentro da escola temos que prepara os estudantes para uma sociedade diferente, mais inclusiva, com maiores oportunidades para todos. As temáticas afrodescendentes e indígenas devem, de acordo com a lei federal, fazer parte dos programas escolares ao longo de toda a formação. Ninguém nasce racista, mas as crianças aprendem os mesmos mecanismos de preconceito e estigmatização praticados por seus pais e avós. É preciso falar sobre o racismo e informar as pessoas sobre a mentira que é a superioridade branca, que as ideologias racistas foram criadas apenas para justificar a dominação de determinados grupos sobre outros, mas que não possuem nenhum fundamento biológico que acarrete qualidades morais diferenciadas entre as pessoas. De fato, precisamos falar sobre o racismo na região para que ele não gere ainda mais sofrimento.

 

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