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A quem interessa o apequenamento do Judiciário?

Para nós, magistrados, nada melhor seria que ter o subsídio em uma única parcela. Isso daria transparência aos vencimentos da magistratura e afastaria os chamados ?penduricalhos?, como o auxílio-moradia.


O auxílio-moradia vem sendo debatido com intensidade nos meios de comunicação e na sociedade e por isso convém que se lancem luzes sobre o tema.

Os juízes, integrantes do Poder Judiciário, compõem uma das carreiras de Estado à qual é alcançada, legalmente - é bom que se ressalte -, o benefício em foco.

Por quê? Porque o governo não honra o compromisso de correção dos subsídios da magistratura e, além disso, opõe óbices ao trânsito de projetos de lei encaminhados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) que visam apenas repor as perdas inflacionárias.

Para nós, magistrados, nada melhor seria que ter o subsídio em uma única parcela. Isso daria transparência aos vencimentos da magistratura e afastaria os chamados "penduricalhos", como o auxílio-moradia.

Aos juízes e às suas entidades de classe interessa política salarial que seja respeitada, assim como também um plano de valorização de sua carreira, uma entre tantas outras essenciais para o funcionamento do Estado.

O que se vê na mídia e nas redes sociais é uma espécie de histeria moralista contra o auxílio-moradia, eleito o Judas da hora. Em julgamento público, condena-se quem o recebe - aqueles com poder e prerrogativa de julgar e de promover a paz social por meio de suas decisões.

Interessante é que quem mais critica o pagamento do auxílio-moradia é quem mais cobra do Judiciário e do Ministério Público combate sem trégua à corrupção. Ou aqueles que acham que os juízes estão sendo muito rigorosos nas suas decisões. Ou seja, se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come.

O autor de "Psicologia das Multidões", Gustave Le Bom, advertia que "os sentimentos, bons ou maus, manifestados pela multidão, apresentam dupla característica de serem muito simples e muito exagerados."

Para o especialista, "sob esse aspecto, como sob tantos outros, o indivíduo em multidão aproxima-se dos seres primitivos. Insensível às nuances, vê todas as coisas em bloco e não conhece as transições. Na multidão, o exagero de um sentimento é fortalecido pelo fato de que, propagando-se muito rapidamente mediante sugestão e contágio, a aprovação de que se torna objeto aumenta sua força consideravelmente".

A reflexão cai como uma luva sobre o tema que estamos a examinar e a mobilização que ele promove. Tomara que a questão do auxílio-moradia deflagre debate sério em relação aos recursos públicos, a fim de que não haja desvios, desperdícios, renúncias, má aplicação e todo um corolário indesejado historicamente pela população.

E que a magistratura deixe de ser submetida à execração por buscar vencimentos ao menos corrigidos pela inflação. Para concluir, lanço aos leitores uma pergunta que não quer calar: A QUEM INTERESSA O APEQUENAMENTO DO PODER JUDICIÁRIO?

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