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Senhor deputado federal

Ito José Lanius [email protected]


Confundem-me as posições assumidas pelo Congresso Nacional e tenho dúvidas a serem sanadas. Portanto, envio esta carta para Vossa Excelência na esperança de ser esclarecido.
Antes, preciso cumprimentá-lo por ter chegado até aí. Foram muitos e diversos votos recebidos, com certeza! E eu bem sei que existe uma diversidade: voto consciente, comprado, a cabresto, ilusão, voto interesseiro. E um especial: o voto da ignorância, induzido pela propaganda e pela habilidade dos cabos eleitorais.
Eu não tenho dúvida que sua eleição ocorreu por uma maioria de votos conscientes. Quem o escolheu teve clareza de que seria bem representado. Seus eleitores, convém não esquecer, também fazem parte do povo brasileiro. Por isso, recordo que os interesses coletivos da nação estão acima dos interesses particulares desse ou daquele eleitor.
São muitas as questões que afligem a mim e alguns de meus amigos, mas vou expor algumas. Temos dificuldade, por exemplo, de entender o motivo de tantos deputados federais resistirem à operação Lava-Jato. Ou melhor (pior?), não desejarem que os ladrões julgados e condenados sejam punidos. Também desconhecemos a razão dos ataques ao ministro Sergio Moro, homem que teve a coragem de enfrentar os crimes de grandes ladrões - políticos e empresários.
Diga-nos a razão de um deputado do Brasil custar tanto, mesmo em relação aos países mais ricos. E nem se trata apenas de salário, mas da quantidade de assessores acrescida às múltiplas vantagens para o exercício do cargo. Explique-me, por favor, a razão dessa despesa enorme redundar em quase nada, quando se analisa a produção de cada gabinete.
Por gentileza, responda-nos o que são cláusulas pétreas - esse algo mais que parece valer apenas para privilegiados do setor público. E por que os altos salários desses servidores safam-se do fator previdenciário? Quando uma empresa vai mal, ainda resta alguma garantia para os funcionários, caso sobre capital. Já os diretores e sócios têm de se virar. Já no alquebrado setor público, os privilégios são mantidos. Será que não deveríamos fazer um pacto e todos - todos quer dizer sem exceção - contribuirmos para a retomada brasileira?
Senhor deputado, por que não se aplica a lei vigente sobre o teto salarial, ainda mais neste momento de crise? Quem sabe não é hora de transformar os famosos direitos adquiridos em precatórios? Precatórios que muitos esperam há tanto tempo e necessitam bem mais do que os apaniguados. Esclareça-me ainda: os senhores cuidam dos problemas do povo brasileiro ou do grande negócio que virou a profissionalização da política?
Essas, creio, são dúvidas gerais, quando a discussão deveria centrar-se na busca de soluções para os problemas na educação, saúde e segurança pública.
Por fim, cumprimento-o por ser um bom deputado, embora uma exceção a justificar a regra. Por fim, sinto que esse Congresso, que deveria espelhar o povo, revela-se cada vez mais a negação do que tinha de representar.
É hora de mudar, senhor deputado!


Ito Lanius

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