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Encantado do passado: A história pelo olhar de uma descendente

Eda Bratti Rodrigues é neta de um dos primeiros moradores. Seu avô chegou na cidade em 1882

Créditos: Fernanda Mallmann e Paulo Messa
- Lidiane Mallmann

Encantado - O registro oficial do passado do município está nos livros. Mas uma forma mais prazerosa de saber um pouco mais sobre a Encantado que completa 105 anos neste 31 de março é marcar um encontro para conversar com dona Eda Zita Bratti Rodrigues (90). Hoje, é da janela da casa, na Rua Coronel Sobral, que ela contempla a Encantado onde nasceu e viveu boa parte da vida. 

Mais que contar a história, Eda faz parte dela. A família Bratti foi a segunda a colonizar Encantado - a primeira foi a dos Lucca. O avô, Antônio Bratti, veio sozinho da Itália em 1882. Desposou Victória Buffon, em Porto Alegre. "O vô veio solteiro para cá, conheceu a vó e se casaram na Igreja do Rosário. A lua de mel foi o trajeto de Porto Alegre até Encantado: levaram uma semana para chegar aqui", conta, recordando das conversas que tinha com a avó.

Em Encantado, Antônio e a esposa instalaram-se no Bairro Lambari. Como era pedreiro, carpinteiro e sapateiro na Europa, ele trouxe todas as ferramentas de lá. Além de material para construir. Anos mais tarde, os pais de Antônio - bisavós de dona Eda - também saíram da Itália para chegar em Encantado. "Eles trouxeram tudo para fazer uma casa completa. Minha bisavó trouxe até papel de parede para forrar o quarto dela e a sala. Ela gostou muito daqui, mas o meu bisavô não. Ele morreu seis meses depois de chegar. Morreu de tédio porque Encantado só tinha mato", relata.

Um pioneiro
Estabelecido em Encantado, Antônio Bratti fez a vida. Eda conta que o avô montou um moinho e uma fábrica de álcool. Mas as raízes com a Itália sempre foram mantidas. "Ele era um homem de muita cultura, se correspondia com o cônsul da Itália", orgulha-se.

Essa relação trouxe benefícios para a cidade. Dona Eda conta que, graças à amizade, a Itália enviava médicos para Encantado. "Eles ficavam dois ou três anos aqui e voltavam para a Itália. Daí vinha outro de novo." Assim como houve apoio na saúde, o avô também interferiu para criar o colégio da irmãs, onde era ensinado o italiano gramatical.

Outra marca que seu Antônio deixou está num dos pontos turísticos da cidade. Os sinos da Igreja Matriz São Pedro foram doados pela Itália, também em função das correspondências com o consulado da Itália. Seu Antônio Bratti, falecido em 1928, está enterrado no Cemitério de Santo Antão.

Passado, presente e futuro
A infância desta encantadense cheia de histórias foi de muita proximidade com a avó Victória. A mãe de Eda faleceu quando ela era criança e isso deixou-a ainda mais perto da anciã. "Eu me lembro muito dela, era minha madrinha também. Me ensinou a fazer crochê."

Eda recorda ainda das brincadeiras com os primos e das tardes de domingo em que passeava com as amigas em Encantado. "Era uma turma. Nós saíamos para inspecionar as coisas", diverte-se. Quando moça, casou-se e foi morar com o marido em Santa Cruz do Sul e, depois, em Ibirubá. Aprendeu a costurar - perdeu as contas de quantos vestidos de noiva confeccionou - e fez um curso de doces e bolos artísticos. Hoje, viúva, já está há 40 anos de volta à terra natal.

Sobre o presente, ela se revolta um pouco: "Eu não aceito Encantado como está: aquele pedágio trancou tudo. Tínhamos três ou quatro concessionárias de carros aqui e hoje não tem mais nada. Está tudo indo embora. Precisa melhorar de novo", reflete.

Mas nem esses dissabores fazem com que dona Eda perca o sorriso quando afirma o que Encantado significa: "É a minha cidade do coração", diz, com a segurança de que é pela janela da casa, na Rua Coronel Sobral, que ela quer permanecer vendo a vida passar.


Encantado por seus moradores
Entre os morros do vale e colada no Rio Taquari, está localizada a bela e promissora Encantado, que neste sábado, 31, completa seus 103 anos de emancipação. Como o próprio nome diz, cheia de encantos e com uma lendária história com índios e magia que compuseram seu surgimento.

Território de colonização italiana, o município com população estimada pelo IBGE em mais de 22,1 mil habitantes atrai gente de outras cidades, que se apoiam num presente vibrante e vislumbram um futuro de sucesso. Terra de cidadãos ilustres reconhecidos, como o historiador Gino Ferri e o esportista Vitor Berticelli, é o lugar que fica marcado no coração de quem nasce ou passa pela cidade.

Apaixonado por sua terra natal, o também ilustre filho de Encantado, professor de língua portuguesa Airto Gomes, 70 anos, descreveu em doces palavras o sentimento de intimidade que só aqueles que viveram grande parte de suas vidas e acompanharam o desenvolvimento da cidade podem guardar consigo.

Nos versos publicados em sua rede social, expõe as mudanças vividas pela cidade ao longo do tempo que se confunde com sua história de vida. "A liberdade da tua natureza deu-me tudo o que uma criança deveria ter para valorizar a vida. Deu-me um rio para nadar, matas para caçar e brincar de índio, potreiros para jogar bola, locais naturais para piqueniques, estações climáticas definidas, além de uma infinidade de apetrechos de teu meio ambiente, que se tornaram, artesanalmente, meus brinquedos favoritos... Estás ficando sim, quanto mais velha, mais linda e percebo que são os visitantes que mais te elogiam! Não leve como ingratidão de teu povo, algumas críticas ou comentários maldosos de alguns teus filhos, porque, sua maioria, envolve outros interesses e não a tua existência. Dá um desconto! É impossível não ver as marcas do tempo em nós dois de uma forma totalmente diferente. Tu ficas te modernizando enquanto que eu, procuro viver com a nossa saudade de outros tempos."

Figura conhecida na cidade por ser um dos arquivos vivos da biografia do município, o professor, autor de 23 livros publicados entre biografias, histórias da cidade e literatura infantil, relata o valor que a cidade tem. "Encantado para mim tem significado de história de vida. Tenho uma ligação muito forte com a cidade. Tive inúmeras oportunidades de sair daqui, ir embora, mas retornei. É uma cidade hospitaleira, diferente de outros locais. Já morei em outras cidades, mas quando tinha a oportunidade vinha para casa", conta o historiador.

Migrantes
O mesmo sentimento de acolhida perpassa gerações e conquista o coração de quem decide tornar-se um filho de Encantado. Em busca de qualidade de vida, a todo momento novos cidadãos chegam à cidade. É o caso, por exemplo, da comerciante Clarice Weber, 42 anos, moradora do Bairro Santo Antão. Natural de Lajeado, vive há 11 anos em Encantado, onde chegou em busca de oportunidade de trabalho. 

"Gosto de morar em Encantado porque me sinto bem acolhida, tenho muitas amizades. Em 11 anos aqui fiz mais amigos do que em Lajeado. Sinto-me segura na cidade, inclusive para a criação dos meus filhos. Gostaria, inclusive, que eles também ficassem por aqui", declara a mãe de dois filhos. Com desenvolvimento pujante, apontado em dados da Administração Municipal no começo deste ano, com a abertura de novos postos de trabalho e previsão de ainda mais vagas, é o lugar onde há quem acredite no potencial empreendedor.

O putinguense Fernando Buganti, 23 anos, é um exemplo da juventude que aposta no município para investir em um negócio próprio. Há quase cinco anos residindo em Encantado, ele decidiu fixar-se no município pelos aspectos positivos para seu crescimento profissional.
"Há quatro anos eu escolhi morar aqui. Acho Encantado uma cidade acolhedora, tranquila e segura. Com suas adversidades como todo lugar, mas também com aspectos muito próprios, singulares, que me fazem refletir se seria vantajoso sair e ir para outro lugar. Gostaria apenas que fosse um lugar que se abrisse mais aos jovens e que oferecesse mais oportunidades a eles, mais emprego, para que os mantivesse aqui."

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