Esporte

A primeira Fake News da história do Vale do Taquari envolve futebol

Conheça a história do jogo que nunca aconteceu entre o Fortes e Livres, de Muçum, e a Seleção da Concacaf

Créditos: Guilherme Rossini
FORTES E LIVRES: clube centenário teve suas atividades profissionais encerradas em 1975 - Guilherme van Leeuwen

Muçum - O maior jogo da história do Vale do Taquari que não aconteceu. Essa provavelmente seja a melhor forma de resumir a história da primeira grande Fake News do esporte da região. Uma trama tão bem armada, capaz de envolver a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), além do Fortes e Livres, um dos clubes mais antigos do Rio Grande do Sul. Vários veículos de imprensa regionais e nacionais promoveram a partida que não existiu entre o time de Muçum e a Seleção da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf).


O ano era 1972, época em que não existiam computadores e muito menos celulares nas grandes e pequenas corporações, veículos de comunicação e residências. O prefeito da cidade de Muçum e diretor do Fortes e Livres, Arly Blessi, recebeu uma ligação da Federação Gaúcha de Futebol informando que a Seleção da Concacaf, que estava no Brasil para a disputa de um torneio na região Nordeste, teria interesse em jogar contra a equipe do Vale do Taquari. Ex-atleta do clube, dirigente e prefeito da cidade, ficou muito feliz e motivado com a oportunidade que a equipe muçunense teria. Mal ele sabia que toda aquela felicidade se tornaria decepção por uma partida que nunca esteve perto de acontecer.

 
Por que uma partida contra a Seleção da Concacaf?


A seleção da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) era uma equipe formada por sete atletas do Haiti, seis de Honduras, um da Jamaica, um do Suriname e um das Bermudas. A equipe acabava de participar de uma competição na região Nordeste do país, onde fez somente três gols e tomou 16. Porém, qual o motivo desta seleção viajar até o interior gaúcho para enfrentar um time que sequer jogava a divisão principal do campeonato estadual?


Ao que tudo indica, foi inventada uma história que eles teriam o interesse de viajar até Muçum pois em Nicarágua havia uma cidade de nome parecido. Muzzum era a cidade 'co-irmã' do município vale-taquariense. A operação para a partida acontecer já envolvia a figura do presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Rubens Hofmeister, e também o diretor de futebol da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Antônio do Passo.


Apesar de absurda, a história foi se espalhando, e em pouco menos de uma semana, os maiores veículos de comunicação, não só gaúchos, já falavam do amistoso, até o momento o maior da história do Vale do Taquari.


O pai da criança


Até aquele momento, não só o interior gaúcho, mas parte da capital e do país falavam da partida histórica entre Fortes e Livres e a Seleção da Concacaf. Com isso, dirigentes e comandantes das federações foram pouco a pouco aproveitando-se da situação e falando como se fossem os responsáveis pelos contatos para a partida. O presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Rubens Hofmeister, e o diretor de futebol da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Antônio do Passo, davam entrevistas aos jornais e às rádios como se estivessem tratando diretamente com os responsáveis pela Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) sobre o amistoso.


O prefeito da cidade e diretor do Fortes e Livres na época, Arly Blessi, explica que a documentação recebida o ajudou a achar que a partida realmente aconteceria. "Foram fonogramas recebidos da FGF e um telefonema de Antônio do Passo, que até se ofereceu para tratar pessoalmente da organização do amistoso e se responsabilizar pelo contato direto com a Seleção da Concacaf. O jogo ia acontecer, não parecia que era uma mentira criada por alguém", explica Blessi.

 
O trote


Com a história do jogo entrelaçada entre a FGF e a CBD, nas figuras de Rubens Hofmeister e Antônio do Passo, além do prefeito e dirigente Arly Blessi, a imprensa começou a averiguar para descobrir de onde veio realmente a iniciativa de convocar a Seleção da Concacaf e o Fortes e Livres para o amistoso. Com isso, foi descoberto, na verdade, que tudo não passava de um trote, e que todas as pessoas envolvidas haviam sido enganadas.


As ligações e os documentos recebidos por cada um deles, na verdade, não passavam de pessoas se passando por eles mesmos, tanto na Federação Gaúcha, como na Confederação Brasileira. Com isso, o mesmo alvoroço dos veículos de comunicação diante do evento histórico, se tornou pressão e chacota, principalmente para Hofmeister, Passo e Blessi.


A partir da descoberta de que os documentos tiveram assinaturas falsificadas dos dirigentes, foi quebrado o sigilo das linhas telefônicas da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Assim, perceberam que as primeiras ligações para o prefeito partiram de dentro da própria FGF.


Portanto, partindo de dentro da entidade, as ligações acabaram se tornando documentos dentro da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), e contatos por intermédio de Antônio do Passo. Com a verdade descoberta, houve não só pressão, mas chacota da imprensa regional e nacional pelo jogo que nunca aconteceria entre o Fortes e Livres e a Seleção da Concacaf.


Mais de 20 anos depois, o escritor Renato Maciel de Sá Júnior, de certa forma, esclareceu o caso. Segundo ele, o trote teria sido efetuado por uma trinca de jornalistas, composta por Rogério Mendelski, Roberto Appel e José Antônio Pinheiro Machado. Com o bom relacionamento e o trânsito livre que tinham com a Federação Gaúcha de Futebol, eles utilizaram, entre outras coisas, o telex da sucursal gaúcha do Estado de São Paulo, um dos poucos locais que já usufruía de tal tecnologia.


A repercussão em Muçum


Um dos moradores da cidade e com grande envolvimento com o Fortes e Livres, Marcos Bastiani, explica que apesar não ter ouriçado a cidade, o caso gerou grande repercussão. "Não é que Muçum tenha parado por causa deste jogo, até porque haviam muitas pessoas que desconfiaram desde o início que a partida realmente aconteceria. Até por isso não houve grande tristeza ou desilusão com o não acontecimento do jogo."


O ex-camisa 9 da equipe, que jogou de 1958 até 1974 no Fortes e Livres, João Bastiani, ou Joaninha, ficou muito empolgado com a oportunidade de jogar contra uma seleção. "A gente não era exatamente profissional, pois tínhamos outras ocupações. Eu, por exemplo, além de jogador, era caminhoneiro. Lembro-me do dia que disseram que íamos jogar contra a Seleção da Concacaf, ficamos loucos no vestiário. Porém, no dia a dia fomos percebendo que não era verdade. Claro que ficamos tristes, mas faz parte do jogo", diz.


O ainda morador de Muçum, ex-prefeito, ex-jogador e dirigente do Fortes e Livres, Arly Blessi, conta que mesmo com tudo o que aconteceu, ninguém na cidade nunca o cobrou ou lhe colocou a responsabilidade do não acontecimento do jogo. "Me lembro de falar para todo mundo sobre o amistoso. Foi muito legal, a cidade estava empolgada. Já falávamos sobre uma festa para recepcioná-los. Porém, foi tudo um trote. Mas em nenhum momento fiquei triste depois do ocorrido, pois Muçum foi colocada no mapa e se tornou a história que é contada até hoje. Acho que se tivesse acontecido o amistoso, não falaríamos de tudo como falamos hoje."

"Não é que Muçum tenha parado por causa deste jogo, até porque haviam muitas pessoas que desconfiaram desde o início que a partida realmente aconteceria" - Marcos Bastiani

"Eu em nenhum momento fiquei triste depois do ocorrido, pois Muçum foi colocada no mapa e se tornou a história que é contada até hoje. Acho que se tivesse acontecido o amistoso, não falaríamos de tudo como falamos hoje" - ARLY BLESSI

"Lembro-me do dia que disseram que íamos jogar contra a Seleção da Concacaf, ficamos loucos no vestiário. Porém, no dia a dia fomos percebendo que não era verdade" - Joaninha

 

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