Esporte

Heróis sem amparo

Atletas e pessoas que sonham com medalhas e conquistas pelo Brasil têm pouco o que comemorar

Créditos: Guilherme Rossini
SONHANDO ALTO: mesmo sem apoio do Governo Federal, atletas da ginástica de trampolim que treinam na Univates representaram o Brasil nos últimos dois mundiais - Lidiane Mallmann

Lajeado - Hoje, 19 de fevereiro, comemora-se o Dia Nacional do Esportista. Conhecida primeiramente como a "Lei Zico", em homenagem ao Galinho, desde 1993 a data celebra o dia de tantos que praticam atividades físicas em todo o país. Porém, o que motiva alguém a praticar esportes? Para muitos, a saúde. Entretanto, muitas vezes, são os heróis que fazem com que muitas crianças queiram fazer natação, como o César Cielo; basquete, como o Oscar; ginástica artística, como a Daiane dos Santos ou o Arthur Zanetti; judô, como a Rafaela Silva, entre muitas outras modalidades, sem falar no futebol de Pelé, é claro.


Porém, ano após ano, esses heróis Olímpicos, Pan-americanos ou mesmo nacionais, cada vez mais observam o apoio aos jovens que pretendem seguir seus passos se esvair diante das medidas governamentais. Um dos últimos atos de Michel Temer na presidência do Brasil foi a redução de praticamente 50% do Bolsa Atleta, cortando principalmente, o benefício dos jovens de base, tentando manter somente a elite, ou seja, os últimos heróis que sobraram. No entanto, não foi só isso. Jair Bolsonaro, em uma de suas medidas iniciais na presidência, extinguiu o Ministério do Esporte, encaminhando-o aos cuidados de Osmar Terra, na pasta chamada de Cidadania.


Segundo o professor da Univates e treinador de ginástica de trampolim na universidade, Marcos Minoru, que recebeu o Bolsa Atleta entre 2003 e 2004, os cortes não são o grande problema para os jovens atletas. "A Bolsa Atleta, é claro que ajuda. No entanto, acabaram com o Ministério do Esporte. O que parece ser algo catastrófico, na verdade não modifica nada. Nada havia sido feito por eles, esse sim é o grande problema", entende o treinador, que em 2017 e 2018 conseguiu classificar atletas para o Mundial de Ginástica de Trampolim.

 


Bolsa Atleta não é a única opção


O professor Marcos Minoru, que trabalha com diversas crianças e jovens no Complexo Esportivo da Univates, entende a importância de programas governamentais como o Bolsa Atleta, mas vê que há certa falta de critério na qualificação e bonificação, principalmente dos atletas de base. "Por exemplo, aqui temos que escolher se disputamos as categorias elite e júnior, ou por idade. Nas primeiras, há a qualificação para o recebimento de incentivos governamentais, na segunda, podemos classificar para o Campeonato Mundial, como fizemos nos dois últimos anos. É complicado demais, quando na verdade deveriam qualificar pelos melhores no ranking do país", explica.


A Associação de Ecologia em Canoagem (AECA) de Estrela também acabou prejudicada, pois, devido aos cortes do governo no final de 2018, três atletas da canoagem acabaram ficando sem o benefício. Apesar do pequeno apoio, sendo somente R$ 370,00 mensais, segundo o presidente da Aeca, Marcos Alexandre Kayser, ajudava muitos os jovens. "Esses cortes foram feitos justamente na base, onde é o pior lugar para se tirar verba. Pois, esses atletas, com 15 anos, muitas vezes vindos de famílias pobres, usam esse dinheiro para viver, se alimentar minimamente, e o mais importante, que é não trabalhar e poder seguir no esporte. Por isso, retirar ele na categoria de base foi o pior erro que poderia ter sido feito. Depois de adulto, eles conseguem sobreviver, dão sempre um jeito. Mas esses garotos acabam perdendo a oportunidade de continuar, como um menino aqui, que é Campeão Brasileiro em cinco categorias, e não vai receber o Bolsa Atleta, é triste demais", lamenta o presidente.


Entretanto, Minoru ressalta que, apesar de ser importante o recebimento de bolsas, os atletas e professores acabam conseguindo outras soluções para seguirem competindo, principalmente com força de vontade e o apoio de diversas pessoas e entidades. Segundo ele, atualmente, a Univates e a empresa Imojel são as maiores apoiadoras da ginástica no projeto em que ensina. "Por meio da Associação Desportiva e Cultural dos Vales (Adesva), nos organizamos para conseguir recursos para nos mantermos. Além disso, nós, como equipe, fazemos ações como venda de produtos, alimentos, esse tipo de coisa, para podermos viajar e competir. Temos que ver que ainda conseguimos seguir, e isso é positivo", diz o professor.

 


Esporte é educação

 
A cada eleição, todo presidente no Brasil diz que o futuro depende da educação. Porém, nunca é feito um planejamento a longo prazo para que se concretize esse futuro. A educação não é só sala de aula, mas também esporte. Então as práticas esportivas no país acabam sendo prejudicadas por essa falha. O professor e coordenador de projetos esportivos no Vale do Taquari, Daniel Sehn, entende que o esporte tem um papel fundamental na formação do jovem. "Ele é o melhor e mais eficaz instrumento de desenvolvimento humano e inclusão social. Ele é um fenômeno de linguagem universal. O esporte ultrapassa o limite físico e transpassa ao nível educacional e formativo. Além dos benefícios como socialização, senso de responsabilidade, solidariedade, organização, cooperação, motivação, disciplina e tolerância, o esporte, ainda completa a formação pedagógica, estimula a dedicação aos estudos, os hábitos saudáveis e os valores humanos", enfatiza.

Minoru ainda frisa que, com pequenos investimentos agora, os heróis não estarão necessariamente no pódio. "O esporte é o investimento mais barato que o governo poderia fazer. Mas o objetivo não é só o pódio, pois a prática esportiva ajuda muito no crescimento das pessoas. Só por uma pessoa estar treinando numa universidade como a Univates, por exemplo, já a insere no ambiente acadêmico, o que pode fazer com que ela vire um ótimo médico, advogado, professor", afirma.

 

MARCOS MINORU: ""A Bolsa Atleta, é claro que ajuda. No entanto, acabaram com o Ministério do Esporte. O que parece ser algo catastrófico, na verdade não modifica nada. Nada havia sido feito por eles, esse sim é o grande problema"

 

 

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