Esporte

Vale do Taquari, o vale dos ciclistas

Grupos da região encararam o Desafio da Serra do Rio do Rastro

Créditos: Marcio Souza
DESAFIO: ciclistas percorreram 24 quilômetros com 1,4 mil metros de altimetria - Marcio Souza

Lauro Müller/SC - Ela tem curvas exuberantes. E quantas curvas. Todas bem desenhadas, deixam aqueles que atrevem a usufruí-la ansiosos, aflitos, sedentos para ter a sensação de como é poder conhecer uma nova curva, um novo desenho, de como é chegar ao êxtase. E não são só bem torneadas curvas; cada uma destas novas imagens, que o atrevimento permite conhecer, está rodeada de uma exuberância ímpar, da mistura do que parece selvagem com o que é moderno, de uma demonstração singular de um feito do homem - para quem vê in loco - com um toque divino. Assim é a SC-390, mais conhecida como rodovia da Serra do Rio do Rastro. E foi para encarar o desafio de subir todos os cerca de 1,4 mil metros de altimetria, que um grupo de ciclistas saiu do Vale do Taquari, à 0h30min de sábado.

A viagem começa com a surpresa do motorista do ônibus, Carlos Portz. Ao chegar no ponto marcado, ele se depara com um grupo de variada idade, mas com algo em comum: dos 36 passageiros, 29 tinham bicicletas para colocar no bagageiro. E não se trata de qualquer magrela. São especiais, tratadas com carinho, recebem o cuidado que as malas, seja lá o que tivesse dentro, não receberam. "Foi a primeira vez que levei tanta bicicleta", diz ao demonstrar a estranheza ao se deparar com a "carga".

Os códigos peculiares a quem é adepto do ciclismo passaram a fazer parte do trajeto de 415 quilômetros, até chegar a cidade de Lauro Müller, onde o grupo ficou hospedado. Era speed para um lado, MTB (montain bike) para outro, guidon, marchas, médias, ritmos, sugestões e questionamentos para enfrentar os 24 quilômetros de subida, que levariam à medalha, à superação do 8º Desafio da Serra do Rio do Rastro e a um dos melhores lugares para se enxergar, praticamente, toda à distância percorrida e, em caso de tempo bom, até o mar, no litoral catarinense - isto, no mirante, já em Bom Jardim da Serra, cidade vizinha.



Experiência
Tudo era novidade. Os grupos da região costumam fazer caminhos longos, alguns até íngremes, como o Morro da Berlim, ligação de Imigrante com a RSC-453, ou o da Lagoa da Harmonia, mas nunca um tão intenso. Um deles, porém, já tinha passado por esta experiência. Mateus Schneider, de Lajeado, já havia subido duas vezes. Ele adiantou: "o segredo é fazer o seu ritmo para conseguir chegar lá e, se possível, estar no pódio". Os melhores tempos ficam em torno de uma hora e cinco minutos. Schneider já havia feito uma hora e 26 e uma hora e 22 - índice repetido nesta oportunidade.

Recepção
Além da experiência de Schneider, os demais participantes tinham informações de desportistas e de profissionais da estrada, que já haviam passado por ali, mas com veículos automotores. Não tinham, entretanto, o conhecimento de quão receptiva é a comunidade de Lauro Müller. Apesar de não viver do turismo, os moradores passam a impressão de que adotam aqueles visitantes, que se atrevem a passar encarar a Serra do Rio do Rastro.

Assim, não foi difícil encontrar a Escola de Educação Básica Walter Holthausen, que foi feita de dormitório, nem estabelecer uma proximidade com a equipe de serventes, professores e dirigentes da instituição de ensino, que receberam todos como da família. Além de pontos já contatados, como o colégio, também foi fácil se deparar com o senhor que, relatando peculiaridades da cidade - "Aqui se vive da mineração; aqui, nesta casa, mora o prefeito" - leva o grupo para a padaria, como se fosse guia turístico; ou a dona do Armazén e Restaurante Nunes, um espaço que serve comida caseira, no pé do morro, e que abre somente para almoço, mas não deixou de servir o jantar para parte do grupo do Vale do Taquari - a boa vontade acabou rendendo-lhe, no domingo, após a prova, mais uma leva de almoços. "Quando tiverem passando por aqui, podem chegar", diz ao se despedir com a certeza de que agradou os gaúchos.

A paixão ou a loucura
O sentimento demonstrado pelos integrantes dos grupos da região (ValeCiclismo Lajeado; Riders, de Estrela; Amigos da Bike, de Venâncio Aires; Giros Byke, de Encantado; além de representantes de Muçum e Arroio do Meio), que foram para SC encarar o desafio, podem ter duas leituras, sobretudo, para os leigos: paixão ou loucura. A primeira é facilmente explicado pela forma como tratam suas bicicletas. Por maior valor comercial que elas possam ter, ainda são utilizadas, pelos demais "mortais", como meio de transporte ou de lazer. Por eles não. São companheiras, merecem atenção, não podem sofrer um arranhão sequer, têm freios especiais, equipamentos que permitem cálculos, facilidade no manuseio e na prática desportiva; algumas pesam quase nada.

A loucura também não é difícil de entender. Afinal, eles viajaram 415 quilômetros de ônibus, gastaram com transporte, hospedagem, alimentação, inscrição, além do tempo, pois saíram na madrugada de sábado e chegaram na noite de domingo. Não bastasse tudo isso, ainda enfrentaram uma subida que demanda extrema atenção e esforço até para quem vai com carro ou caminhão. Encarar de bicicleta é esforço extremo. Haverá, no entanto, quem se pergunte: o que seria da vida se não existem os loucos e suas loucuras?

Esta mistura de paixão e loucura fez com que, por exemplo, o gaúcho de Rosário do Sul, Márcio Cirolini, fizesse uma tatuagem em sua perna com o formato de uma caveira ilustrada com equipamentos de bicicletas. "Eu queria expressar quanto gosto do ciclismo e consegui por meio da tatuagem", conta o atleta que encarou 750 quilômetros de estrada para chegar a Lauro Müller. Como ele, tinha gente do Mato Grosso, São Paulo, Brasília, grupos de pessoas que se reuniram e foram para SC em carros, aviões, ônibus e, até, em bicicleta.

Os momentos de sustos
O grupo do Vale do Taquari levou, pelo menos três sustos, durante a viagem. Um deles de ordem técnica. Um pneu um pouco murcho precisou de ar. A bomba solidária, como aliás foram todas as atitudes dos integrantes da viagem - em qualquer circunstância -, ajudou. Ao que tudo indica, excesso de ar ou defeito de fabricação da câmera acabou a rompendo por completo. Uma explosão que partiu de um dos quartos - a sala de aula da Biologia, da Escola Walter Holthausen, onde estava a magrela.

Este inconveniente logo foi superado com o preparo do grupo - afinal, que vai para estrada tem reserva. Outro susto, porém, rondou a noite de sábado para domingo, gerando certa tensão e, até, motivou alguns a pensarem duas vezes se, de fato, encarariam o desafio de subir pedalando a Serra do Rio do Rastro. Eles locaram uma van e foram ao mirante, ponto de chegada da prova, na tarde de sábado. A constatação foi de que o que teriam pela frente não seria nada fácil. Receio se transformou em palavra de ordem. Afinal, não seria qualquer subida, eram muitos ciclistas junto (cerca de 1,3 mil), além de um vento constante percebido no alto do morro, que deu sensação de um frio ainda não sentido em solo catarinense pelo grupo.

Com medo, ou sem, todos que haviam proposto subir a rodovia subiram. O vento, que haviam percebido no sábado, multiplicou-se. Gelado e intenso, ele chegava a deslocar os ciclistas, dificultar o avanço, em algumas partes, e empurrar, como se fossem barcos a vela, em outros. Este dificultador imposto pela natureza fez com que o trajeto se torna-se ainda mais difícil. Foi assim para o chapecoense Neimar Moraes de Oliveira.

Assim que terminou o desafio, ele atirou-se, pálido, no chão do quiosque do mirante. "Você está bem?", questionaram algumas pessoas que fugiam do frio, no local. "Não", respondeu sucintamente, antes de ir a vômito. Passado o momento de tensão, ainda cambaleante, mas já se dizendo "novo", Oliveira seguiu sua caminhada. Sim, caminhada, porque os pedais teriam que esperar o retorno do condicionamento físico. Ele, assim como muitos dos participantes, retornou para o ponto de saída em ônibus disponibilizados pela organização do evento. Alguns, incluindo representantes do Vale do Taquari, resolveram fazer o caminho inverso, também, de bicicleta.

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