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Auschwitz e as redes sociais

Créditos: Flávio Meurer

Em uma palestra proferida em 1965, intitulada "A educação após Auschwitz", o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) afirma que a exigência primeira de toda educação é evitar que a experiência do holocausto, tal como ocorreu sob o nazismo na Alemanha, se repita. Segundo ele, não deveríamos aceitar que o que ocorreu nos campos de concentração foi um fenômeno isolado, que, como tal, dificilmente se repetiria. O pensador identificava na vida social a persistência de fatores que foram fundamentais para que Auschwitz tivesse ocorrido, mas que geralmente não são associados aos campos de concentração. Assim, a tarefa da educação seria desenvolver a consciência sobre esses fatores, como forma de combatê-los.

Um fator identificado por Adorno foi o que ele chamou de "fetiche tecnológico", ou seja, o encantamento que em nós provocam a técnica e a tecnologia, transformando-as em fins em si mesmos, desvinculados de qualquer outra finalidade. Os meios passariam a ser fetichizados porque os fins - a vida humana digna - encontrar-se-iam encobertos na consciência das pessoas. E a dificuldade maior em combater esse fator estaria na incerteza sobre onde está o ponto de transição entre uma relação racional com a técnica e sua supervalorização, que levaria, por exemplo, "quem projeta um sistema ferroviário para conduzir as vítimas a Auschwitz com maior rapidez e fluência a esquecer o que acontece com estas vítimas em Auschwitz".

A questão é que essa mentalidade estaria presente não apenas dentro dos regimes totalitários. O filósofo relata que muitas pessoas preconceituosas que participaram de suas pesquisas desenvolvidas nos Estados Unidos sobre a personalidade autoritária falavam de seu interesse (e mesmo paixão) pelos "equipamentos", ou seja, pelas coisas. Esse tipo de consciência estava cada vez mais naturalizada, o que tornava ainda mais "perturbador e desesperançoso" - nas palavras do próprio Adorno - o combate a ela. Hoje, boa parte da nossa relação com o mundo se dá por meio de equipamentos, sobretudo aqueles de comunicação e informação, que exercem grande fascínio sobre nós. A partir do diagnóstico do pensador alemão, podemos nos perguntar o quanto essa mentalidade é vigente hoje, já que grandes expressões da barbárie têm sido cometidas justamente por esses meios, como nos casos de linchamentos virtuais e outras manifestações de ódio.

 

 


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