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Brinquedo de menino e brinquedo de menina

O problema, aparentemente, estaria numa tal de "ideologia de gênero", criada por feministas e grupos LGBT para ensinar meninos e meninas a serem gays


Uma das maiores polêmicas de todos os tempos da semana passada se deu a partir de um anúncio de uma marca de sabão em pó, que instava os pais a incentivarem os meninos a brincarem com brinquedos costumeiramente associados ao gênero feminino (bonecas, maquininhas de lavar roupa e outros equipamentos domésticos) e meninas a brincarem com os "típicos" brinquedos masculinos (bolas de futebol, carrinhos). A proposta gerou revolta de alguns grupos, especialmente os ligados a certas vertentes religiosas, que propuseram, inclusive, boicote ao sabão em pó. O problema, aparentemente, estaria numa tal de "ideologia de gênero", criada por feministas e grupos LGBT para ensinar meninos e meninas a serem gays.

A teoria (não ideologia) sobre gênero, dizendo de maneira muito simples, afirma que não existe uma vinculação necessária entre sentir-se pertencente a um gênero (identificar-se com o modo de ser masculino ou feminino), o sexo biológico (possuir aparelhos reprodutores masculinos ou femininos) e o interesse sexual (sentir-se atraído por homens ou por mulheres). Esses elementos se combinam de maneiras muito variadas, cruzando-se fatores biológicos (genéticos e ambientais) e culturais. Não há como determinar exatamente o quanto o fator cultural contribui para formar nossa identidade. Ao sabermos, por meio de uma ultrassonografia, que nosso(a) filho(a) tem determinado órgão sexual, já passamos a elaborar uma série de discursos sobre seu gênero: roupas, decoração do quarto, brinquedos. Nas lojas de brinquedos, não encontraremos bonecas bebês, conjuntos de panelinhas, fogõezinhos voltados para meninos, ainda que as tarefas do lar - cuidar dos filhos, fazer comida, arrumar a casa - sejam tarefas que não necessariamente deveriam estar associadas a um gênero, sobretudo nas atuais configurações sociais, em que homens e mulheres têm trabalhos fora do lar.

A tentativa de reforçar a ideia de que meninas devem brincar com brinquedos "de meninas" só serve para reafirmar uma divisão entre os gêneros baseada nas atividades que realizam, e assim naturalizar, por exemplo, o fato de que mulheres tenham jornada dupla de trabalho. Portanto, não faz sentido dividir as brincadeiras (que são, de certa forma, um ensaio para a vida adulta) a partir de gêneros. Não significa obrigar crianças a serem dessa ou daquela maneira, mas dar-lhes opções, para que entendam que o mundo, tal como está organizado, não é o único possível e que não pode ser perpetuado se continuar produzindo injustiças.

 

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