Colunistas

Em defesa do jornalismo


O jornalismo é um elemento essencial da democracia. Não é à toa que uma das primeiras medidas dos regimes autoritários é censurar a imprensa. Ela deve ser os olhos e os ouvidos do público contra o poder, seja este político ou econômico. E por isso é fundamental que ela desagrade. Como disse George Orwell, jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado; todo o resto é publicidade. No atual cenário político brasileiro, esse "desagradar" da imprensa foi ideologizado, e o jornalismo, enquanto instituição da vida democrática, passou a ser questionado. Não que a imprensa não erre. Erra, e por diversos motivos, inclusive ideológicos. Porém, seu papel como elemento independente na cena política não pode ser substituído por outras formas de informação, como as mensagens de Whatsapp. Um marco importante desse descrédito são os protestos de junho de 2013, em que a imprensa tradicional, ligada aos grandes grupos de comunicação, viram surgir contrapontos por parte de pessoas com celulares nas mãos mostrando diferentes versões daqueles fatos.

Assim, se fortaleceu a impressão de que qualquer um é jornalista porque pode coletar e disseminar informação. O fenômeno das famigeradas fake news usadas nas eleições - mas não só - representam o auge dessa situação. Elas espalham a desinformação, e, num ambiente polarizado ideologicamente, cada um acredita naquilo que quer acreditar. Chegamos ao ponto de surgirem agências especializadas na checagem dessas informações que circulam em redes sociais. Porém, como um cachorro correndo atrás do rabo, essas agências nunca darão conta de checar tudo o que se pode produzir de notícia falsa - ainda mais quando algumas dessas notícias checadas são obviamente mentirosas. É um trabalho de Sísifo.
Por isso, a universidade deve prezar pela formação dos jornalistas, resguardando sua essência, e não só por uma questão de ética. Ou seja, não é que o profissional deve prezar pelo rigor da apuração para ser um jornalista ético; ele ou ela deve prezar por isso para ser um ou uma jornalista. Partindo dessa premissa, cursos de Jornalismo de universidades gaúchas, a partir de uma provocação do professor Fabian Thier, da PUC-RS, estão lançando um manifesto em defesa do jornalismo, para "defender a importância da profissão na luta contra o arbítrio e continuar agindo em defesa do cidadão, baseados nos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos". Sem essa instância, nossa combalida democracia pode ir de vez pelo ralo.


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