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Flávio Meurer

Créditos: Flávio Meurer

A irracionalidade política

A primeira vez que escrevi sobre esse tema foi pouco antes do segundo turno das eleições de 2014, que deram forma a um espírito que havia tomado conta do país desde as manifestações de junho de 2013. Desde então, tornaram-se lugar comum, nas análises feitas sobre a vida política no Brasil, as ideias de radicalização, ruptura, maniqueísmo. As disputas políticas e ideológicas passaram a dar a impressão de que o objetivo era não a vitória sobre um adversário a partir da argumentação, mas a eliminação do outro. Quem não está comigo está contra mim. Amizades foram desfeitas nas redes sociais de internet e na vida off line. Houve brigas nas reuniões de família e nos grupos de Whatsapp. Este ano, tiros no ônibus da caravana de um pré-candidato à presidência da república e, há pouco mais de uma semana, um candidato é esfaqueado na rua durante um ato de campanha.

Logo após a facada, surgiram na internet afirmações de que o ataque teria sido ordenado por adversários políticos ou que teria sido uma farsa armada pelo próprio candidato atacado. Prontamente, os demais candidatos presidenciais manifestaram repúdio ao ataque, rechaçando a violência como elemento da disputa política. Pouco tempo depois, o agressor foi encontrado e, em seu depoimento, mostrou sinais de perturbação mental, alegando que sua ação teria sido "por ordem de Deus". Ainda que o agressor seja desequilibrado, ele é resultado de um caldo cultural de extremismos. Graças aos aparelhos móveis que estão nas mãos de quase todo mundo hoje em dia, o ataque foi registrado em vídeo por diversos ângulos, e rapidamente as imagens se espalharam, o que nos colocou, de forma imediata e brutal, diante da radicalização que permeia nossa vida política. Aqueles que ainda acreditam no debate político por meio de ideias viram nesse episódio a concretização da brutalidade que já se ensaiava nos ambientes virtuais. Os desdobramentos desse caso ainda estão por vir, mas esperamos que tenha servido para questionarmos que monstros estamos produzindo e como o país poderá se reconstruir depois das próximas eleições, quem quer que seja o eleito.


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