Colunistas

Jornalismo e democracia

Flávio Meurer, professor da Univates. [email protected]


"Fazer jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado; todo o resto é publicidade". Já vi essa frase ser atribuída a George Orwell (autor da distopia 1984) e a William Randolph Hearst (empresário americano da área da comunicação no final do século XIX e início do XX). Independentemente de quem é o autor, a frase afirma o jornalismo como elemento fundamental de vigilância ao poder, tanto político quanto econômico. O jornalismo deve trazer à luz o que muitos - sobretudo os detentores do poder - pretendem que permaneça escondido dos olhos do público. Portanto, jornalismo não pode se limitar a assumir as demandas e as versões das assessorias de comunicação, que têm por obrigação preservar a imagem de seus clientes e divulgar as coisas boas que fazem. Não que esses serviços não sejam legítimos e importantes para as corporações, mas mantêm essa diferença essencial em relação ao jornalismo. Entretanto, a sua independência em relação ao poder não pode ser confundida com estar em cima do muro, com a ausência de posicionamento diante dos desvios das pessoas públicas.
E torna-se cada vez mais difícil e delicado o papel do jornalismo brasileiro de se colocar frente a questões políticas, dada a polarização irracional que tem se abatido sobre o país. De forma mais contundente, desde junho de 2013, o jornalismo tem sido questionado enquanto instituição. É claro que o trabalho dos grandes veículos de imprensa deve ser criticado, pois nem sempre seus interesses são os interesses públicos. Há fatores econômicos ou políticos que os movem também. Entretanto, criou-se a percepção equivocada de que as atividades jornalísticas podem ser substituídas por outras fontes de informação, como as mensagens que circulam nas redes sociais. Muitos começaram a se informar por outros meios, sem sequer checar a consistência das informações que circulam. Se a pessoa concorda com o teor de uma mensagem, já a toma como verdadeira e a passa adiante. Às vezes, a pessoa nem se importa que seja ou não verdadeira, desde que reforce sua própria posição ideológica. O jornalismo que se quer digno do nome não pode entrar nesse circuito, pois ele não é apenas disseminação de informação, mas uma determinada forma de lidar com a informação, que exige rigor na apuração dos fatos. Seu papel na democracia depende disso, e a parte esclarecida da sociedade deve apoiar o bom jornalismo, posicionando-se firmemente contra qualquer forma de perseguição àqueles que pretendem continuar publicando aquilo que alguns não querem que se publique.


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