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Marielle

Quem comete uma execução como essa - de uma figura pública que se manifesta contra um determinado poder - não está executando apenas a pessoa e suas ações; está tentando espalhar o medo


Enquanto escrevo, o assunto do momento nas redes sociais é o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Ela era a relatora da Comissão de Fiscalização da Intervenção Federal no Rio de Janeiro. Dias atrás, havia denunciado a violência policial contra os moradores da comunidade de Acari. Ela e o motorista foram executados. Não há qualquer indício de latrocínio. Quem comete uma execução como essa - de uma figura pública que se manifesta contra um determinado poder - não está executando apenas a pessoa e suas ações; está tentando espalhar o medo e a desorientação, para que outros não tentem seguir seus passos. Até o fim da manhã desta quinta, pelo que sei, os responsáveis pela intervenção se manifestaram apenas por meio de uma nota formal, com "repudia", "se solidariza" e "acompanha". 

O caso de Marielle ganha visibilidade por ser no Rio de Janeiro. Ela foi executada no Centro da cidade. Mas, assim como ela, há, pelos cantos mais remotos do país - desde favelas até longínquos lugares na Amazônia ou no sertão nordestino - lideranças comunitárias, indígenas ou quilombolas sendo mortas, e nós não ficamos sabendo. Há muitos poderes ocultos por esse Brasil, longe dos radares de nós que desfrutamos de um mínimo grau de civilização. 

Junto com assassinatos como o de Marielle, vem a disputa pelo sentido dessas mortes. Na atual polarização que vivemos - e que tende a se agravar com a proximidade das eleições - vemos de tudo: desde aqueles que relativizam a morte dela, até os que a ironizam. Mesmo quem discorda das causas, das ideias e até dos métodos adotados pela vereadora, se ainda tem um pingo de humanidade, não pode relativizar o que ocorreu. Atos de protesto estão sendo programados em várias cidades. Não são atos apenas de pedidos de justiça aos responsáveis pela morte, mas para que se olhe para o que ela vinha denunciando, pois não se pode descolar seu assassinato da sua luta e do contexto em que se dá - a intervenção no Rio de Janeiro. Fiquemos atentos ao que vai acontecer, pois certamente esse caso e essas causas estão longe de acabar.

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