Colunistas

O conhecimento sob ataque

Artigo de Flávio Meurer


Redução do investimento em ciências humanas e Filosofia; corte de verbas para as universidades federais, com a justificativa de promoverem "balbúrdia"; vigilância ilegal sobre professores acusados de doutrinação. O ataque que o conhecimento tem sofrido do atual governo federal é apenas a manifestação mais concreta de um fenômeno que está presente, de forma latente, na Modernidade Ocidental: a desconfiança com relação ao pensamento crítico. Tempos atrás, escrevi neste espaço sobre o problema de o conhecimento ser medido por sua utilidade, ou seja, por sua capacidade de servir ao sistema produtivo, de preferência em curto prazo.

Parece ter chegado o tempo que eu previ naquele texto: aquele em que o conhecimento teórico e reflexivo passaria a ser tratado não só como inútil, mas também como ilegal. O pensamento crítico, por definição, é aquele que questiona o estado das coisas. Sua utilidade - se é que podemos dizer assim - está na promoção da reflexão, sobretudo quanto aos fins a que o conhecimento se destina. O sistema de assassinatos em massa produzido pelo nazismo nos campos de concentração era bastante eficiente para os fins a que se destinava, e é provável que vários conhecimentos práticos e aplicáveis tenham sido utilizados na sua construção. Sem questionamento sobre os objetivos do que produzimos, estaremos condenados a novos holocaustos.

Passamos, então, a viver um paradoxo, tornado possível pelos próprios princípios da Modernidade: o conhecimento científico deve questionar, e então ele mesmo passa a ser questionado; a democracia deve dar voz a todos, e então impõe-se a voz daqueles que pretendem minar a própria democracia. A nova hegemonia política aparece como promotora de uma mentalidade confusa - quando não mal-intencionada - em que teorias sobre globalismo e marxismo cultural estão muito próximas da defesa do terraplanismo e do geocentrismo. Ficamos com a sensação de que qualquer ideia, mesmo sem o mínimo de evidências empíricas, pode ser defendida, e, como se trata daqueles que estão no poder, pode ser imposta à sociedade. Pelo visto, uma nova Idade Média vem por aí.

 


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