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O Enem e os direitos humanos

Há um corte sociodemográfico bem marcado no perfil desses eliminados, que acabaram sendo justamente os que já têm, historicamente, menos chances de conseguir uma boa nota e assim entrar no ensino superior público


Em sua página Numeralha, o jornalista Marcelo Soares apresenta uma análise interessante sobre o perfil dos desclassificados na redação do Enem de 2015 pelo critério de desrespeito aos direitos humanos. Naquele ano, o tema da redação foi a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Por se tratar de um tema como esse, era de se esperar que o maior número de desclassificados fossem homens. Pois não foi isso que os dados mostraram. As mulheres representaram 60% dos que zeraram a prova por conta desse critério. O jornalista levanta a hipótese de que elas provavelmente escreveram que homem que bate em mulher deve receber castigos terríveis, até mesmo a morte. Dessa forma, incorriam em desrespeito aos direitos humanos e eram desclassificadas.

Outros dados importantes: 80% desses eliminados estudaram somente em escolas públicas, e outros 10% fizeram a maior parte da sua formação em escolas públicas. Na época da aplicação da prova, mais da metade trabalhava ou já havia trabalhado, sendo que mais de dois terços destes tiveram jornada de trabalho igual ou superior a 20 horas semanais. Esses ganhos provavelmente serviam de complemento da renda familiar, que girava em torno de R$ 1.100 mensais. Os pais desses estudantes eram, em sua maioria, trabalhadores rurais, diaristas, pedreiros, porteiros, entre outras profissões que exigem menor escolaridade e que são, em geral, mal remuneradas. E, conforme a renda familiar aumenta, diminui a proporção de desclassificados por desrespeito aos direitos humanos.

Ou seja, há um corte sociodemográfico bem marcado no perfil desses eliminados, que acabaram sendo justamente os que já têm, historicamente, menos chances de conseguir uma boa nota e assim entrar no ensino superior público. Certamente, a discussão sobre direitos humanos deve ser incentivada como parte da formação da juventude, e os ataques a esses princípios deve ser coibido. Porém, a simples eliminação dos candidatos na prova do Enem - que, pelo seu princípio, deveria ser mais inclusiva - acabou favorecendo a elitização do grupo de aprovados. Talvez, essa eliminação tenha eliminado também as chances de que esses estudantes alcançassem um ensino superior de qualidade, em que a discussão sobre direitos humanos fosse mais qualificada, permitindo a eles compreender a importância desse tema.

 

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