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Os heróis e o caos

Se o caos é real ou é apenas uma ?ilusão? produzida pelos meios de comunicação, não sei dizer, e isso pouco importa na produção dessa sensação


Tempos atrás escrevi aqui uma reflexão sobre o consumo cultural adulto de narrativas de super-heróis, a partir do questionamento: o interesse por seres com poderes extraordinários é uma forma de compensação de nossas fragilidades atuais? Em caso afirmativo, quais seriam essas fragilidades? 

O leitor talvez concorde que há uma sensação vaga, difusa, de caos. Se o caos é real ou é apenas uma "ilusão" produzida pelos meios de comunicação, não sei dizer, e isso pouco importa na produção dessa sensação. Ou seja, o caos é principalmente cognitivo: vivemos uma grande dificuldade de organizar mentalmente o mundo de modo que ele faça sentido e assim tenhamos alguma esperança de uma boa vida logo adiante. Se, durante muito tempo, a falta de acesso à informação e ao conhecimento fez com que andássemos numa sala escura, hoje, andamos numa sala cheia de luzes fortes, piscantes, de todas as cores, que nos ofuscam, nos distraem, nos tonteiam. Esse caos produz incerteza, tensão e medo, e aí saímos em busca de uma narrativa que coloque as coisas nos seus lugares, como o fazem os heróis, que, pelos seus poderes sobre-humanos, aniquilam o Mal (o Caos) e nos conduzem ao final feliz. 

A questão para a qual eu chamava atenção no texto anterior era que a projeção dessa necessidade de ordem se transfere para a vida real. Aí, buscamos soluções para os problemas concretos do mundo (aos quais, na sua totalidade, só temos acesso via meios de comunicação) em soluções aparentemente mágicas. E assim surgem os candidatos a heróis, que, com suas intervenções, farão as coisas se ajeitarem. O Super-Homem, personagem da ficção, tinha, ao mesmo tempo, incríveis poderes e um senso moral irretocável. Era esse senso moral que o impedia de dominar o mundo em proveito próprio, mesmo que fosse capaz de fazer isso facilmente. Enquanto o herói de Krypton tem seus poderes originados da sua condição extraterrestre, nossos "heróis" ganham seus poderes por uma concessão coletiva nossa. Agora, podemos acreditar que esses humanos nada super que aí se apresentam terão a mesma capacidade moral de, ao receberem tantos poderes, resistirem ao domínio em proveito próprio? Fiquemos de olho.

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