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Pra não dizer que não falei de Neymar

Créditos: Flávio Meurer

Será que Pelé, Zico, Romário ou Ronaldo teriam a mesma imagem nos seus respectivos auges como jogadores, se houvesse, no tempo deles, os facebooks, instagrams e twitters da vida? Faço essa pergunta por causa de Neymar. Não há dúvidas de que ele é um craque: rápido, habilidoso, diversas vezes decisivo. No entanto, parece estar longe de ser unanimidade enquanto ídolo, enquanto personalidade a ser admirada. Penso que, talvez, essa sensação de que sua posição de ídolo é duvidosa seja um efeito das redes sociais, em que praticamente tudo é objeto de polêmica. Ou talvez essa sensação seja apenas minha, dentro da minha bolha de relacionamentos virtuais. Talvez, fora dela, de forma muito mais representativa em relação ao Brasil, a imagem de Neymar ainda seja positiva. 

Porém, sobre o que não há, talvez, é que ele é um craque também em chamar a atenção, um craque midiático. Jogador mais caro da história, namora uma jovem e bela atriz global, aparece em quase tudo que é comercial de TV. Enfim, Neymar é um produto a ser consumido, num ciclo muito bem conhecido: quanto mais aparece, maior seu valor enquanto produto; quanto maior seu valor, mais ele tende a aparecer. Essa condição não é nada fácil de administrar, pois o sujeito - aquele que pensa, sente, duvida e tem remela no olho quando acorda - é capturado por uma rede muito maior do que ele próprio. Como corresponder a essa condição e ainda viver a banalidade da vida? É muito provável que Neymar esteja jogando com dores, ainda da lesão que sofreu meses atrás. Se ele força a barra porque quer muito jogar, para sua realização pessoal, ou porque é uma exigência dos patrocinadores, não sabemos. Talvez não haja mais diferença entre essas duas coisas. 

A superexposição do Neymar-produto é um dos fatores que tornam a atuação do Neymar-jogador tão questionável (por certos grupos, fique claro). Ao se identificar sua condição de "meio humano, meio imagem", perde-se a empatia, e assim algumas pessoas veem suas simulações e exageros em campo como resultado de um ego inflado pela excessiva atenção que recebe, o que faz dele uma espécie de monstrinho mimado, com milhões de euros na conta. Nem seu choro ao final do jogo contra a Costa Rica ou seu desabafo nas redes sociais - "Vocês não sabem o que eu passei" - são perdoados. Fica a questão: se o Brasil for campeão, com participação decisiva de Neymar, o tom das suas declarações será conciliador ou vai ser "Vocês vão ter que me engolir/me consumir!"?

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