Flávio Meurer

Crianças e jovens como sintoma

Artigo de Flávio Meurer

Créditos: Flávio Meurer, Professor da Univates

Os últimos dias foram de extrema preocupação com relação a nossas crianças e jovens. Tivemos o julgamento do caso Bernardo, que trouxe de volta à lembrança a crueldade não só de seu assassinato, mas também de seu abandono. O massacre cometido em uma escola paulista, e a apresentação à sociedade de espaços virtuais que propagam e estimulam o ódio. Abuso de drogas em escola lajeadense. A volta da tal boneca Momo, que apareceria em vídeos na internet tentando influenciar crianças a comportamentos perigosos e até suicidas. Naturalmente, esses casos não estão todos no mesmo nível de gravidade, mas, ao se manifestarem em curto período de tempo, nos trazem incompreensão e angústia. O que está acontecendo? Esses fatos nos preocupam em especial por atingirem o ponto mais sensível da nossa sociedade, que são as crianças e os jovens. Eles são como a pele da sociedade, expondo os sintomas de algo que acontece internamente.


Nos últimos dois séculos, a sociedade ocidental se organizou, idealmente, em torno da infância. Aquilo que julgamos ser uma vida digna e feliz - o que a Modernidade concebe como direito humano - deve ser oferecido, prioritariamente, às crianças. Por isso, idealizamos para elas um espaço preservado das dificuldades da vida, em nome de um futuro. Afirmamos sua inocência e fragilidade, de modo que ela deve ser excluída do mundo do sexo e do trabalho, para que seu desenvolvimento possa ser gradual e seguro. No ideário moderno, o horizonte do cidadão cultivado e saudável deve ser buscado por meio da educação e do cuidado com as crianças. É por isso que a violência contra elas ou partindo delas nos escandaliza e nos aterroriza, nos apontando que há algo de doente na sociedade.


Certamente, precisamos identificar, caso a caso, quem tem responsabilidade sobre o que tem ocorrido, mas esse sintoma deve ser pensado também de forma mais ampla. A resposta para origem dessa doença não admite respostas simplistas, como armar professores e funcionários de escolas para evitar novos massacres como o de Suzano. O clima social de ódio e medo que vivemos constrói um terreno fértil para que as desorientações individuais ganhem uma dimensão aterradora. As mortes de nossos jovens e crianças deve acender o sinal de alerta para que pensemos para onde estamos indo.

 


Comments

SEE ALSO ...