Flávio Meurer

Quarta-Feira de Cinzas

Artigo de Flávio Meurer

Créditos: Flávio Meurer, professor da Univates.

O assunto mais comentado desta Quarta-Feira de Cinzas foi, como as leitoras e os leitores devem saber, a postagem, pelo presidente da República, em sua conta oficial no Twitter, de um vídeo em que uma pessoa faz xixi na cabeça de outra em público. Essa prática sexual escatológica tem nome em inglês - golden shower - e foi assim apresentada à família tradicional brasileira pelo mandatário maior da nação. Danação. Há tanta coisa errada nisso que fica difícil saber por onde começar. O mais assustador (ainda que não de todo surpreendente) é que alguns ainda tentaram defender. "As pessoas estão fazendo algo errado e quem denuncia é que é criticado?". Sim, as pessoas que aparecem no vídeo estão fazendo algo de errado, pois isso não pode ser feito em público. Só que essa denúncia deve ser feita para as autoridades competentes, e não divulgada numa rede social de internet, numa conta com milhões de seguidores, inclusive menores, sem qualquer alerta sobre o conteúdo impróprio. Ainda mais na conta oficial do presidente da República! (Tristes tempos em que a gente tem que ocupar espaço dizendo o óbvio).

A motivação para essa postagem? Atacar os blocos de carnaval que estavam cantando músicas de crítica zombeteira a ele. (Carnaval sem crítica ao poder nem é carnaval.) Ele queria mostrar como esses mesmos blocos que o criticavam tinham coisas horríveis, como práticas sexuais escatológicas. Primeiro, pelo vídeo, nem é possível saber se é de fato um bloco de carnaval, nem de quando são essas imagens; segundo, mesmo que fosse um bloco de carnaval, seria uma exceção grotesca, que, repito, é criminosa e deve ser punida da forma adequada. Bloco de carnaval é uma instituição brasileira tão antiga quanto a instituição Presidência da República (ambas de 1889), e o presidente procura difamá-la diante do mundo, afugentando, possivelmente, aquele turista que poderia vir pra cá em 2020 em busca dessa festa.

Esse fato é a confirmação cabal de algo que vem sendo dito há muito tempo: quem ocupa hoje o posto de presidente da República não tem o menor preparo para tal. Não compreende a dimensão do seu posto e continua em campanha. Pior, continua com a mesma postura de deputado do baixo clero que foi por trinta anos: joga para sua torcida ao atacar questões paralelas, enquanto o país enfrenta problemas graves e tem que discutir reformas estruturais.


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