Flávio Meurer

Terraplanismo

Flávio Meurer, professor da Univates. [email protected]


Nesta manhã chuvosa de quinta-feira em que escrevo, ainda não é possível saber da repercussão das paralisações e manifestações realizadas em todo o país contra os ataques à educação. Afora o contingenciamento de verbas que pode inviabilizar o funcionamento de muitas universidades federais, há um ataque de caráter ideológico que torna a situação ainda mais assustadora, pois coloca em risco o cerne da produção de conhecimento e, por consequência, da educação: a ciência.

A última - quer dizer, a mais recente, pois certamente não será a última - do governo é o "engavetamento" de pesquisa sobre o consumo de drogas feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Foram investidos nessa pesquisa R$ 7 milhões, envolvendo 500 pesquisadores, que entrevistaram mais de 16 mil pessoas, em 351 cidades, conforme a metodologia usada pela Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD). Apesar do rigor científico da pesquisa, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, insistiu em dizer que não confiava nos resultados, que apontavam para um "viés ideológico de liberação [das drogas]".

Segundo o jornal The Intercept Brasil apontou ainda em abril, os dados apresentam algo diferente do que o governo pretendia encontrar. Setores conservadores ligados ao governo acreditam na existência de uma "epidemia de drogas" no país. De acordo com pesquisadores entrevistados pelo jornal, a situação, ainda que possa ser preocupante, está longe de ser classificada como epidemia. O anedótico é que, para contestar a pesquisa, o ministro Terra alegou que "era óbvia a epidemia", bastando "dar uma volta em Copacabana" para ver. Como disse o jornalista Bernardo Mello Franco, o terraplanismo tomou conta do centro do poder no Brasil.

De fato, as ideias de Terra são bem planas, pois parece não entender - ou fingir não entender - que a ciência se coloca justamente contra o óbvio, contra aquela primeira impressão, o chamado senso comum, que é o principal responsável pelo viés ideológico. E é isto que torna a situação mais desesperadora: não é possível apresentar argumentos, já que eles ficam descaracterizados de saída por um ataque aos pesquisadores e à instituição de pesquisa científica - uma das mais respeitadas do país, com extensa contribuição à área da saúde. Quando não conseguimos acessar nosso debatedor, pois ele se nega a aceitar um mínimo de racionalidade na discussão, ficamos gritando no vazio. Tomara que o barulho dessas manifestações possa ajudar a nos despertar desse transe, antes que despenquemos da borda dessa Terra plana.

 


Comments

SEE ALSO ...