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"A Univates me ajudou a mudar o horizonte da minha vida"

O reitor da Univates recebeu a reportagem para uma conversa sobre o passado, o presente e o futuro de uma das maiores entidades do Vale

Créditos: Lucas George Wendt
- Lidiane Mallmann

Lajeado - Da janela de sua sala, o reitor da Universidade do Vale do Taquari pode ver o Teatro Univates e parte da Biblioteca, dois dos prédios que materializam a grandiosidade da instituição. Em quase 50 anos de atuação, a história da Univates se confunde com a história da região. Na figura de Ney José Lazzari (57), uma liderança à frente do Ensino Superior no Vale há 20 anos. Se considerado o tempo ocupando outras funções de gestão, como professor e como aluno, são 37 anos dedicados à construção do ideal regional de universidade. O reitor da Univates recebeu a reportagem para uma conversa sobre o passado, o presente e o futuro de uma das maiores entidades do Vale, que cresceu com coesão interna, interação com a região e com a seriedade com o ensino. Além da Univates, Lazzari tem passagens pela presidência do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat) e do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung). Também foi vice-presidente da Associação Brasileira das Universidades Comunitárias (Abruc).


O Informativo do Vale - Como foi o início de seu envolvimento com a Univates?
Ney José Lazzari - As coisas aconteceram muito ao natural. A origem disso tudo é quando a própria instituição investiu em mim. Eu me formei aqui em 1982. No último ano, um professor me convidou para fazer mestrado. Fiz o processo seletivo na Ufgrs e acabei iniciando o mestrado em Economia. Mas eu não tinha condições de me manter - eu trabalhava em Lajeado - de parar de trabalhar e estudar, sem ter renda. Então a Univates, na época, a Fates, me ofereceu o seguinte: você faz o mestrado e já começa a dar aula. Então, me formei em 1982 e em março de 1983 comecei lecionar aqui. Eu dava aula nas sextas à noite. Ficava a semana toda em Porto Alegre fazendo o mestrado, nas sextas vinha pra cá, dava aula e ficava com a família no fim de semana. Na época, essa noite-aula era suficiente para bancar a vida de estudante em Porto Alegre. Concluí o mestrado e fui aumentando minha carga horária como docente. Em seguida, a instituição passou a ter o primeiro grupo de professores com 40 horas. Foram oito. Eu sou um desses oito que deixou de ser horista para ser tempo integral. A Univates me ajudou a mudar o horizonte da minha vida e ver uma possibilidade que eu sequer imaginava que existia. Tenho uma sensação de débito e gratidão pelas possibilidades que a instituição me propiciou na vida. Estou na reitoria há quase 20 anos. Exercendo o cargo de reitor nesse tempo. Antes havia o cargo de diretor-geral, na época das faculdades [mantidas pela Fates]. Fui diretor-geral por três anos. Quando mudou para centro universitário a figura do diretor-geral mudou para reitor.

O Informativo do Vale - Na sua avaliação, quais foram os momentos importantes na história mais recente?
Lazzari - A criação de cursos específicos, que perante a sociedade demonstram a maturidade da instituição; a implantação de mestrados e doutorados, que demonstram a maturidade acadêmica [processos implementados na década de 2000]. Outro ponto que marca um diferencial são os investimentos feitos a partir de 2012 - o Teatro, a Biblioteca, o Estádio Olímpico e o Tecnovates, inaugurados em 2014. Eles colocam a estrutura física da organização em outro patamar. E a recente transformação em universidade. Até certo ponto propositadamente protelamos a criação da figura jurídica universidade, mas, por outro lado, ela tem um simbolismo muito importante para quem vive no meio.

O Informativo do Vale - E a mudança de status acadêmico? O que, de fato, simboliza?
Lazzari - Muito próximo de a instituição completar os primeiros 50 anos, ela se transforma em universidade. É um ciclo todo que se completa e demonstra a maturidade do projeto. É uma consolidação que abre a possibilidade de parcerias internacionais, por exemplo. Universidade é um termo universal, não é necessário explicar para ninguém o que é. Já Centro Universitário, por exemplo, só existe no Brasil, assim como outras denominações só existem em determinados países.

O Informativo do Vale - Como o senhor percebe as implicações sociais do trabalho da Univates?
Lazzari - Por exemplo, a área da saúde. Estamos desenvolvendo essa área há pelo menos 15 anos, até a chegada do curso de medicina em 2014. Com a implantação do curso de medicina, entramos em outro patamar de envolvimento. Só no ano passado, em torno de 3,5 mil consultas, que normalmente seriam feitas em Porto Alegre, foram feitas aqui no Centro Clínico. São 3,5 mil viagens de pessoas da região que teriam pego o ônibus da prefeitura de madrugada, para ficar o dia todo em Porto Alegre e, no fim do dia, voltar. Para uma consulta de meia hora. Agora o paciente vem aqui com hora marcada e é atendido. Só isso já seria suficiente para pensarmos que estamos fazendo um bom trabalho. Mas isso é apenas uma das atividades que se faz em meio a tantas outras.

O Informativo - Como é a relação entre a Instituição e administração pública?
Lazzari - A Prefeitura e a Universidade devem assumir posturas de liderança na cidade. De propor coisas. Uma como parceira da outra. Lembro que recentemente viajamos para Recife, juntos, Univates e Prefeitura para tratar sobre questões do Tecnovates. Nessa área tecnológica e de inovação temos grandes possibilidades de fazer coisas importantes para Lajeado e para o Vale. Temos que ter uma interação muito forte entre parque-universidade-cidade: pensamos que todo o espaço junto à Rua Bento Rosa desde Carneiros até o Centro Antigo de Lajeado pode ser transformado em uma "rota da inovação" com empreendimentos e empreendedores olhando para os novos setores econômicos e para o futuro. É um projeto de 20, 30, 40 anos. Isso qualifica a cidade e o entorno. Mas esse é apenas um dos exemplos das inúmeras iniciativas que a Universidade e a cidade-prefeitura podem e já estão fazendo em conjunto.

O Informativo do Vale - Falando na relação com a prefeitura, quais as perspectivas para a implantação do setor de Assistência Profissional em Saúde (APS) Univates?
Lazzari - Sabemos que é na área da saúde que grande parte das questões relacionadas à gestão pública são mais palpáveis. Nesta parceria da Univates com a Prefeitura, nós entramos com o quadro de profissionais e quem vai dizer o que tem que ser feito em cada local é a Prefeitura. Nós estamos com o recurso humano, que tem que ser qualificado, tem que ser treinado, mas a política de saúde é dada pelo setor público. É um trabalho hercúleo que vem com uma expectativa muito grande dos cidadãos do município. Vamos buscar melhorar um serviço que, a princípio, vem bem. É uma responsabilidade que estamos assumindo. São esses os desafios que fazem com que as coisas andem e cresçam.

O Informativo do Vale - Existe um Vale, conectado pela universidade?
Lazzari - Sim. Você tem na mesma sala de aula um aluno de Arvorezinha e outro de Bom Retiro do Sul. Eles vão se conhecer para o resto da vida, mesmo que não estejam juntos depois de formados. Eles podem se encontrar tempos depois. São conexões que foram feitas. São possibilidades.

O Informativo do Vale - O Ensino Superior no Vale do Taquari sempre foi uma iniciativa regional. Que reflexos isso teve para o desenvolvimento do Vale?
Lazzari - Mesmo tendo sido criada no final dos anos 1960, o verdadeiro salto da Instituição se deu em meados dos anos 1990. Antes disso a instituição era muito pequena, poucos alunos, poucas pessoas para tocar esse grande projeto e pouquíssimos recursos. A instituição precisava dar os saltos e crescer. Tínhamos que mostrar para a região a nossa importância. Foi também nesse período do início dos anos 1990 que surge a proposta dos Coredes no Estado, isso foi no governo Alceu Collares. A primeira proposta pega o mapa do RS e o divide em oito regiões. A região do Vale do Taquari não existia: uma parte do Vale ficava com o Vale do Rio Pardo, outra parte com a região da Serra e outra com a área Metropolitana de Porto Alegre. Não existia um Vale do Taquari consolidado como o conhecemos hoje. A Amvat, que reunia os prefeitos, nos chamou para fazermos alguns estudos e organizamos uma contraproposta colocando o Vale no mapa. Reunimos material, pensamos nos limites regionais? A ideia de Vale era tênue: Alto Taquari, Baixo Taquari? Aí começamos a pensar isso como uma região só. O governo do estado topou rediscutir. No total, as oito regiões propostas pelo governo viram 28 Coredes e o Vale do Taquari criou o seu Conselho Regional de Desenvolvimento (Codevat), que está aí firme e forte até hoje. Na constituição do Codevat fomos a todas as prefeituras, ainda como Fates. O tempo inteiro vendíamos que uma região tinha que ter quer uma universidade - o Vale, naquele momento, não tinha. Para nós foi importante esse movimento de inserção. Vendíamos a ideia de região e vendia a ideia de universidade. As pessoas compreenderam muito bem. Com o tempo, a ideia de Vale do Taquari, de Conselho de Desenvolvimento e de universidade se transformaram em uma coisa só. A construção da universidade e a construção da ideia de Vale do Taquari são ações que acontecem concomitantemente, uma ajudando a outra. Isso foi vital. O papel da instituição é o de grande articuladora. Para onde a instituição direcionar seu foco, acaba influenciando a região. Estar próximo do Codevat e o Codevat estar próximo da Univates é importante para que todos andem para o mesmo lado e puxem estrategicamente para a mesma direção.

O Informativo do Vale - As pessoas destacam muito sua visão voltada ao futuro, enquanto gestor. Como surgem as suas ideias?
Lazzari - Eu estou envolvido com as questões da Univates e o seu entorno o tempo todo, mas penso que reflexões mais aprofundadas se dão especialmente quando viajo e tenho outras experiências em instituições semelhantes. Não é possível copiar pura e simplesmente as de outros lugares do mundo e implantar aqui. As pessoas são diferentes, a cultura é diferente, o momento histórico é outro, o poder aquisitivo também. Ver como as coisas são feitas em outros espaços dá insights. Quando viajo eu destino a última página do meu bloco de anotações ou do bloco de notas do celular para anotar as coisas que eu posso fazer. Tem coisas que ficam dois anos na fila.

O Informativo do Vale - O que esperar do futuro? Como o senhor o imagina para a Univates?
Lazzari - Recebi um convite há alguns meses, para o aniversário de 800 anos da Universidade de Salamanca, na Espanha. Vou para lá em maio. Quando você me pergunta assim: 'O que se pensa para os próximos 50 anos?'... Eu já tinha me perguntado sobre isso quando vi o convite de 800 anos da universidade. Vou perguntar para eles o que se faz dos 50 aos 100. Eles já devem ter a receita pronta. As universidades são as organizações mais perenes e mais antigas do mundo. A de Bolonha, de 1088, é a primeira universidade. O que estamos construindo aqui não é uma instituição para a semana que vem, para o ano que vem, nem para o centenário que vem. É instituição milenar. A gente tem que reconhecer todo o trabalho de quem veio antes de nós e que bom que nos anos 60 algumas pessoas pensaram em ter uma universidade no Vale. Mas temos que ter sempre presente a perenidade dessa instituição. A universidade tem que estar aqui daqui a 300 anos e respondendo ao seu momento. Estes primeiros 50 anos foram muito mais de se criar a ideia de universidade. A região entendeu que precisa de uma organização deste tipo. A universidade esteve neste meio século envolvida prioritariamente com a formação de pessoas. Na qualificação de recursos humanos para os trabalhos que temos. O que nos falta? Dar um outro salto. Já temos estrutura. O passo seguinte é ser uma instituição que se preocupa mais e mais em ajudar a resolver os problemas da sociedade e superar aquilo que dificulta o desenvolvimento econômico e social da região. Isso se faz com pesquisa e inovação. A ferramenta nós já temos para dar esse o salto: o Tecnovates. O futuro passa pelo Tecnovates: geração de emprego, de renda, novos negócios, mudança de foco e mudança na matriz produtiva da região. No curto prazo, uma grande desafio é o de pensar como ocupar toda a estrutura que temos durante o dia inteiro: outros tipos de cursos, parcerias com empresas, com outros níveis de ensino, como ter alunos por mais tempo no campus.

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