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"Não existe paz sem justiça social", diz Monja Coen em visita a Lajeado

Sucesso nos palcos e no Youtube, budista lotou o Teatro Univates na quinta-feira

Créditos: Jean Peixoto
CULTURA DE PAZ: Monja Coen palestrou para mais de mil pessoas que lotaram o Teatro Univates em busca de sabedoria e transformação pessoal - Lidiane Mallmann

Lajeado - Com a habitual serenidade no olhar e um sorriso acolhedor estampado no rosto, a jornalista Cláudia Dias Baptista de Sousa - mais conhecida como Monja Coen - adentra o camarim. Na antessala, onde recebe repórteres dos principais veículos de comunicação do Vale do Taquari, ela se concentra antes de palestrar para uma plateia de mais de mil pessoas, que lota o Teatro da Univates.

Primeira mulher e monja de ascendência não japonesa a assumir a presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, ela é sucesso nacional no canal do Youtube, no canal MOVA, que já conta com mais de 1 milhão de inscritos.

Jornalismo e transformação

Monja Coen conta que o jornalismo mudou a sua vida e carreira. "O fato de entrevistar tantas pessoas de classes sociais diferentes. Ver tantas dificuldades, sofrimento e ao mesmo tempo tanta alegria e compartilhamento. Acho que o jornal foi a primeira coisa que abriu um portal de consciência maior que o meu bairro, a minha escola, a minha família. Para eu perceber que nós pertencemos à vida na Terra e como fazer com que todos fiquem bem."

Ela questiona a veracidade do que entendemos a partir da mídia. "A notícia é a verdade. Mas o que é a verdade? Repetimos frases, mas será que elas são verdadeiras? Será que a maneira como eu falo, como eu penso, está beneficiando a maioria dos seres? Ou eu estou pensando apenas em mim?", tenciona. Coen destaca que sempre se baseia na prática da meditação e do autoconhecimento, para buscar as respostas dentro de si mesma.

Tempo de ódio

Monja comenta sobre a contemporaneidade, em que os conflitos e discursos de ódio se propagam com maior intensidade através das redes sociais, dividindo e polarizando as pessoas. Ela explica que a violência não é nenhuma novidade, pois já vem descrita desde o primeiro livro do qual se tem conhecimento na sociedade ocidental: a Bíblia, em que Caim assassina o irmão, Abel. "Ódio, raiva, inveja, vingança, nada disso é novidade para nós, humanos. A proposta é como nós podemos crescer um pouco, saindo desse lugar tão individualista, tão competitivo, um contra o outro, para que tenhamos mais compartilhamento. Na construção de uma cultura de paz, justiça e cura da Terra. Não existe paz sem justiça social e não há justiça social se não houver o cuidado com a Mãe Terra e todos os seres. Nós somos essa trama da existência de tudo o que existe. Quando nos tornarmos maiores cuidadores uns dos outros e respeitamos os pontos de vista diferentes."

Marketing e polarização

Monja Coen amplia a discussão acerca das polarizações presentes na política utilizando como exemplo as eleições de 2018. "O que aconteceu aqui no ano passado, não foi só no Brasil, mas no mundo, por exemplo. A eleição nos Estados Unidos já foi isso também, de ficar polarizando. Isto é um jogo de marketing. E as pessoas que fizeram esse marketing ficaram muito contentes, porque eles elegeram aqueles que quiseram eleger. Ao mesmo tempo, não pensaram nas consequências que isso deu a toda uma sociedade e civilização", sublinha.

Semear o bem

A palestrante enfatiza a importância de cultivarmos pensamentos e sentimentos positivos. Você "Imagine que no nosso cérebro, temos todas as sementes. De amor, ódio, ternura, egoísmo, altruísmo. O que nós regarmos é o que vai nascer. Somos sensíveis uns aos outros. Nos contagiamos da energia do outro. Se todos cultivarmos o ódio, em pouco tempo estaremos todos muito beligerantes, briguentos, bravos e rancorosos. Isso não constrói nada. É preciso que a gente perceba como isso nos provoca e como podemos lidar de forma diferente."

Com os braços simulando um recém-nascido, Monja sugere que a sociedade tome a raiva em seus braços, a embale e acalme, como se faz com um bebê. "Assim, vamos permitir que outras manifestações venham. Vamos regar outras sementes. Mas isso não é somente no individual. É, também, no coletivo. Por isso, é um pouco assustador observar certas coisas como a ideia de que possamos sair todos armados nas ruas, atirando uns nos outros. Naqueles que a gente não gosta. Espero que não seja assim."

Ódio nas redes sociais

Para Monja Coen, é preciso alfabetizar as pessoas para usarem as redes sociais. "É um portal de educação, de crescimento. Para se questionar, crescer, aumentar a capacidade de compreensão da realidade, expansão de consciência e as pessoas ficam usando de forma tão pequena, tão medíocre. Como diz o professor Cortela. A vida já é tão curta, por que fazê-la medíocre? É bom que pensemos diferente. É bom que tenhamos pontos de vista diferentes, porque assim podemos dialogar melhor. Eu posso articular melhor o meu ponto de vista. Eu posso até mudar de ideia. Porque não é feio mudar de ideia. Se alguém me convencer de uma ideia diferente daquela que eu tenho, eu agradeço."

Ela aponta que é mais proveitoso trocar ideias do que confrontá-las. "Hoje, as pessoas brigam por ideias, quando, não precisariam brigar por ideias. Precisamos compreender de onde elas vêm e investir no diálogo. Hoje mesmo conversava no carro sobre a ideia de que em briga de casal não deve se meter. Se um dos dois está agredindo o outro, intrometa-se. Bata na porta, chame a polícia, faça alguma coisa. Não deixe que aconteça um homicídio porque você não quis se meter. Pelo contrário. Quando você vir pessoas beligerantes, o bom é você interferir. Quem não faz nada está compactuando com a violência. O mesmo se diz sobre política e religião, que não se deve discutir. Devemos, sim. Mas não no sentido de braço de ferro, para ver quem perde e quem ganha. Devemos ouvir o ponto de vista do outro. Temos pontos de vista diferentes. Isso é democracia e enriquecimento do nosso olhar."

Contra a censura

Monja defende a liberdade de expressão e de imprensa. Ela relembra do tempo em que atuou como repórter durante a Ditadura Militar. "Se não posso expor o que eu penso porque tenho medo, alguma coisa está errada. Isto é uma sociedade de violência. Se eu tenho medo de falar o que eu penso é porque alguma coisa está errada. E isto, não podemos permitir. Não nos autocensurarmos. Eu vivi em uma época em que havia censura nos jornais e aquilo já era triste o suficiente. Os meus colegas de redação diziam: pior será quando cada um de nós fizer autocensura. Porque é muito pior do que ter uma pessoa do governo lendo tudo o que você escreve. Naquele tempo, tudo o que não poderia ser publicado era substituído por poesia, se deixavam páginas em branco. E ainda assim, aquilo era bom, porque havia uma pessoa censurando o conteúdo. Quando você se tornar o censor de si mesmo, significa que nós estamos proibidos de pensar."

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