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"Não temos como saber se um aluno vem ou não com arma na escola"

Diretores das duas maiores escolas da região comentam sobre tiroteio que matou dez pessoas em Suzano (SP)

Créditos: Cristiano Duarte, Julian Kober
CUIDADOS: no Castelinho, porta só abre a quem se identificar - Lidiane Mallmann

Lajeado - Desde 2006 fora das salas de aula, a professora de inglês Dulce Alberton Chiesa passou para funções administrativas no Colégio Estadual Presidente Castelo Branco - a maior instituição pública de educação do Vale do Taquari. Neste ano, passou a atender a portaria do colégio. Assim que a campainha ressoa, ela identifica no monitor em frente à porta cada uma das pessoas que tentam adentrar na instituição. "Se a pessoa não se identifica, não permito a entrada. Aqui é tolerância zero", enfatiza a professora.


Com 35 anos de carreira no Castelinho, ela coleciona histórias boas, mas também momentos em que ficou sabendo que sua vida e dos alunos estava em risco.


"Fiquei sabendo de várias vezes que pais ou alunos entraram na escola com armas de fogo ou facas. Nunca testemunhei nada. Mas só de ser informada, já causava desconforto. Os tempos mudaram. Hoje em dia, os professores não têm mais a mesma autoridade com os alunos", desabafa.


Pelos corredores da escola, o assunto mais falado era o massacre em Suzano, no estado de São Paulo, que vitimou dez pessoas, ontem. No atentado, dois ex-alunos, de 17 e 25 anos, mataram oito pessoas e feriram outras dez. Depois do ataque, ao se depararem com a polícia, ambos cometeram suicídio.

ACESSO: Dulce Alberton Chiesa monitora entrada de pessoas no Castelinho


"O fato nos choca ainda mais por tratar-se de um atentado que ocorreu dentro de uma escola - que naturalmente é nosso ambiente de trabalho", conta a vice-diretora Beatriz Reckziegel.


Embora a escola tenha interfone, sistema de videomonitoramento com 16 câmeras de vigilância e fique nas imediações do Comando Regional de Policiamento Ostensivo do Vale do Taquari (CRPO), a sensação de vulnerabilidade existe. "Fico pensando que estamos a mercê de qualquer coisa como esta", diz a vice-diretora.


O Castelinho conta com mais de 1,1 mil alunos. Conforme os estudantes, são raros os casos de violência no interior da instituição. No entanto, o relato de uma jovem causa preocupação. "Um colega estava com uma faca dentro da sala de aula. Mas ninguém percebeu e ficou por isso", afirma. Para ela, casos como esse mostram a fragilidade da segurança. "Normalmente chamam a polícia. Mas quem quer trazer uma arma, consegue." A maior preocupação é a Praça da Matriz, onde há usuários de drogas. "Há alguns desentendimentos fora da escola, mas nada grave", relata um dos jovens.


Conforme o diretor da instituição, Marcos Dalcin, os professores não podem revistar os alunos. "Não temos como saber se um aluno vem ou não com arma na escola." Nestes casos, os professores apostam no diálogo e, se necessário, acionam a Brigada Militar. Como educador na instituição por 21 anos, presenciou casos em que alunos estavam com faca. Também viu casos de briga entre alunos e já precisou chamar a polícia.

 
Vigilância 24 horas


Pelo radiocomunicador, o vigilante do Colégio Evangélico Alberto Torres (Ceat), Sadi da Silva (49), mantém contato de informa aos superiores tudo que observa de estranho pelo televisor que monitora 24 pontos internos e externos da escola. Além disso, a cada pai que sai da escola, ele acompanha atentamente até que o aluno saia em segurança.


"A questão de segurança é um item do orçamento que tem representatividade muito grande. Temos empresa especializada em segurança 24 horas", enfatiza o diretor do Ceat, Rodrigo Ulrich. Ainda segundo ele, a entrada de pessoas que não são alunos ou colaboradores só é possível mediante identificação prévia.


"Se uma empresa vai fazer um serviço de pintura, por exemplo, solicitamos que nos encaminhem informações a respeito dos funcionários", completa Ulrich.

PRIORIDADE: Ceat conta com vigilante, câmeras e grade para aumentar a segurança


Fácil acesso

Uma das armas utilizadas pelos atiradores de São Paulo, a besta (balestra), pode ser facilmente encontrada no centro de Lajeado. Duas lojas vendem o produto sob encomenda e outra o tem exposto, vendido a partir de R$ 1,7 mil. Em lojas on-line, é possível obter o armamento por menos de R$ 400, sem restrição ou necessidade de de apresentar qualquer tipo de documento.


Conforme os vendedores, não é uma arma muito procurada, especialmente por causa do preço. "É um item que sai três a quatro vezes por ano", conta uma vendedora. Muitos compradores a utilizam para pesca ou tiro ao alvo. No entanto, afirmam que não se trata de um instrumento prático para este tipo de ocorrência em função da demora para recarregar as flechas da besta. "Combinado com uma ponta de três lâminas vira um instrumento mortal. Já vendi para um capaz que atirou e atravessou um búfalo", afirma um dos vendedores. Segundo ele, o arco e flecha, outra arma letal, é vendida à crianças. "Muitos pais, quando não sabem o que comprar na Páscoa, Natal ou Dia da Criança, dão um arco para os filhos."


Outro equipamento utilizado pelos atiradores e também é fácil de ser comprado é o jet loader, um carregador especial para revólveres que facilita a troca de munição. Ele custa, em média, R$ 50. "Qualquer criança pode comprar."

 

FACILIDADE: arma utilizada em massacre pode ser facilmente comprada em lojas do município


Prevenção


Para o comandante do 22º BPM, major Cássio Conzatti, as escolas devem investir em um sistema protetivo e preventivo, participando de ações como a Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave) e o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd). Ressalta também a importância do atendimento psicológico nas escolas. "Temos que trabalhar na base. Um acompanhamento mais próximo dos alunos com o intuito de observar e encaminhar problemas pontuais como desavenças e outros distúrbios."


Conforme o major, não há casos como o de São Paulo na região. "Claro que não estamos livres que aconteça. Pelo que se observa, temos problemas de transtornos que acabam acarretando nesses episódios isolados e terríveis." No entanto, Conzatti descarta a necessidade de utilizar detectores de metais nas portas de entradas das escolas. "É um exagero."

 

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