Geral

"O golpe foi uma bofetada na nossa cara"

Após testemunhar Legalidade e queda de Jango, jornalista lajeadense decide lutar contra a ditadura

Créditos: Julian Kober
- Julian Kober

Na sacada de seu apartamento no Bairro Cristal, o jornalista Flávio Tavares (84) admira a Orla do Guaíba na tarde de terça-feira, 26 de março. Seu rosto é preenchido pelos raios de sol enquanto olha para a vista esplendora. Com a visão fixa na paisagem, ele prepara-se para mergulhar novamente na escuridão da cela na qual esteve preso 50 anos atrás. "Até hoje eu tenho pesadelos com o dia a dia na prisão", desabafa.

Com uma memória precisa e afiada, Tavares narra com clareza os fatos que vivenciou como jornalista na década de 1960. Esteve nos bastidores da Campanha da Legalidade (1961), que impediu um golpe e permitiu a João Goulart assumir a Presidência da República. Depois disso, o lajeadense vira um prestigiado colunista político em Brasília pelo jornal Última Hora. Poucos meses antes de completar 30 anos, presenciou a saída de Jango do Palácio do Planalto e registrou a chegada dos militares ao poder em 1964. Com o aumento da repressão durante a Ditadura, abandonou o crachá, lápis e blocos por uma arma e partiu para a luta contra o regime. "Os erros que nós cometemos foram erros de apreciação do país", declara. Preso, vivenciou os horrores da tortura e só foi solto após o sequestro do embaixador norte-
americano Charles Elbrick. Buscou exílio no México e só voltou ao Brasil dez anos depois.

Tavares narra sua história no livro Memórias do Esquecimento (1999), que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2000. De lá pra cá, seguiu a escrever sobre a Ditadura Militar e publicou, em 2014, o livro 1964 - O Golpe, no qual detalha a participação dos Estados Unidos na derrubada de João Goulart e ascensão dos militares. "Temos que resistir sempre à violência e a todo o regime de força que queira impor ideias. As ideias são para serem discutidas e a vida para ser vivida."

Católico e ativista político

O jornalista Flávio Tavares lembra com carinho da época em que viveu no Vale do Taquari. Ainda criança, a família mudou-se para Arroio do Meio, onde o pai, Aristides Hailliot Tavares, foi prefeito entre 1938 a 1941, nomeado pelo Estado Novo. De volta a Lajeado, alfabetizou-se na Escola Estadual Fernandes Vieira e depois estudou no Ginásio São José, o Colégio Estadual Presidente Castelo Branco. Lá, o jovem católico teve como mentor o Irmão Nilo Rech, que mostrou a Tavares o ensinamento social cristão e fez parte da Ação Católica. "Devo muito boa parte da minha formação aos maristas, que eram muito humanistas."

O engajamento político surgiu na adolescência ao mudar-se para Porto Alegre, em 1950, no Colégio Júlio de Castilhos. Lá, aprendeu marxismo com um grupo de judeus socialistas. Foi questão de tempo até virar presidente do Grêmio Estudantil, sendo responsável por organizar uma passeata até o Palácio Piratini para reivindicar ao governador Ernesto Dornelles a construção de um novo prédio no colégio. Foi ali que conheceu João Goulart, na época secretário de Estado de Interior e Justiça. Não imaginava que, 14 anos depois, seria o último jornalista a entrevistá-lo durante o Golpe.

Na universidade, a paixão pela política estudantil só aumentou. Virou presidente da União Estadual de Estudantes e membro do Conselho da União Nacional de Estudantes. Em 1954, entregou ao presidente Getúlio Vargas um documento da UNE com um projeto de reforma universitária. No dia seguinte, o anti-getulista teve uma audiência privada com Vargas, que ficou muito interessado pela proposta dos estudantes. "Me disse que ninguém nunca havia tratado sobre isso", relata. No entanto, Vargas tirou a vida antes de cumprir a promessa.

Ainda em 1954, o jovem, então com 20 anos, viajou até a União Soviética para participar do Conselho Internacional de Estudantes na Universidade de Moscou. "Nesta época, ir na União Soviética era algo insólito. Ninguém ia, e quem ia ficava marcado."

Durante o encontro, foi convidado a visitar a China para acompanhar as celebrações do quinto ano da revolução. A viagem de trem durou oito dias. Tavares ficou deslumbrado com o país e com o povo. "Era um país pobre, mas encantador. Percebia-se que começaram a se libertar da fome e a mão de obra substituiu a tecnologia que não tinham."

Jornalista na Legalidade

A viagem aproximou Flávio Tavares, então formado em Direito pela PUC, do jornalismo. De volta ao Brasil, o semanário Hoje o convidou a escrever uma reportagem sobre sua ida à União Soviética, que acabou virando uma série intitulada "Fui hóspede do Kremlin". A matéria gerou repercussão e Tavares foi incentivado a virar jornalista.

A oportunidade surgiu em 1960, quando foi convidado a atuar como repórter no jornal Última Hora. Para abraçar a função, decidiu abandonar o cargo de diretor executivo do Escritório dos Municípios, e receber um terço do salário que ganhava. Em pouco tempo, foi promovido a chefe de redação e mais tarde passa a realizar a cobertura política do governador Leonel Brizola. "Não podia me desgrudar dele", afirma. Meses depois, acompanhou o guerrilheiro Ernesto Che Guevara na Conferência Interamericana de 1961, em Punta Del Este. Meio século depois, o encontro seria relato no livro "Meus 13 dias com Che Guevara".

Como jornalista, tornou-se testemunha ocular de um dos fatos históricos mais importantes da democracia brasileira, a Campanha da Legalidade de 1961. O jornal Última Hora foi fundamental na rebelião de Leonel Brizola, que sugeriu a publicação de uma edição extra. Com medo de que os militares invadissem a redação, o periódico foi feito nos porões do Palácio Piratini. Depois de pronto, a cavalaria da Brigada Militar escoltou as camionetes que faziam a entrega. "Acho que foi a única vez no mundo em que um jornal sai protegido pela polícia", afirma Tavares, que na época não tinha ideia de que estava sendo protagonista de um evento tão importante. "Mais tarde, fomos perceber que a legalidade tinha marcado um momento histórico e impedimos o golpe."

Do Sul, Tavares rumou para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde exerceu a função de colunista política. João Goulart viria a tomar posse como presidente da República no dia 7 de setembro de 1961. Apesar da vitória, a crise estava longe de terminar. Em seu livro 1964 - O Golpe, Tavares explica que a conspiração contra Jango começou assim que assumiu o cargo e seguiu por mais dois anos e sete meses, concretizando-se no anoitecer do dia 1º de abril de 1964, do qual Tavares também seria testemunha.

Nos bastidores da queda

Após ficar sabendo da sublevação do general Olympio Mourão em Minas Gerais, Flávio Tavares dirigiu-se ao centro político de Brasília, que 36 horas após o início do golpe estava aparentemente tranquila. "Não percebemos que aquilo era a calmaria típica posterior às tempestades. Brasília era uma caixa fechada e não sabia da tormenta", narra em seu livro 1964 - O Golpe.

Do Congresso, caminhou ao Palácio do Planalto, sem saber que o golpe estava em curso. Junto com o outros dois jornalistas, Fernando Pereira (Estado de S. Paulo) e Maria da Graça Dutra (Correio Braziliense), testemunharam Jango preparando-se para sair às pressas.

Petrificados com a cena que assistiam, o trio não conseguiu fazer perguntas a Jango, que arrumava papéis e combinava por telefone com Tancredo Neves um pronunciamento que faria à nação. "Acabo de falar com o comandante do 3º Exército. Vou instalar o governo no Rio Grande do Sul e viajo hoje mesmo para Porto Alegre", disse o presidente de forma tranquila aos jornalistas, que ficaram ainda mais confusos naquele momento. "Nós não entendemos bem o que era aquilo", recorda.

De volta ao Congresso, encontraram o plenário da Câmara dos Deputados e do Senado em caos. Na madrugada do dia 2 de abril, enquanto Jango dirigia-se para o Sul, Tavares testemunhou o golpe militar sendo oficializado com a declaração do senador Auro de Moura Andrade, que durante a sessão declarou vaga a Presidência da República com a justificativa de que Jango havia abandonado o governo. "Não houve debate. Andrade desligou os microfones e convocou o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili, a tomar posse", relata Tavares, que até o momento continuava sem entender nada. "Ainda estava nas nuvens. Cheguei até a pensar que o Brizola vai poder ser candidato à presidência da república, foi algo ingênuo."

O lajeadense acompanhou a posse de Mazzili e narrou todos os fatos por um telefone do Palácio do Planalto. Acabara de testemunhar a concretização dos militares e ficara anestesiado. "O golpe foi uma bofetada nossa cara. Não conseguíamos entender o que era 'aquele momento''', admite.

Viria a se encontrar com Mazzili inesperadamente no elevador de seu prédio. O presidente da República saiu no mesmo andar que o jornalista e entrou no apartamento ao lado do seu, onde vivia o barbeiro de Mazzili, nomeado alto funcionário do parlamento. Muito tempo depois, Tavares descobriu que, embora vivesse oficialmente no Palácio da Alvorada, o político dormia no apartamento do barbeiro com medo de ser sequestrado.

A ascensão do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco ao cargo de presidente da República também foi testemunhada por Tavares, que acompanhou a eleição no Congresso e a cerimônia de posse. Naquele momento, havia achado o discurso de Castello Branco "bom", no qual garantia a independência do Brasil e prometia que entregaria o cargo de presidente no dia 31 de janeiro de 1966. "Foi um discurso respeito. As palavras, no entanto, não tinham nada a ver com a realidade ou com o planejamento do futuro."

O medo à espreita

O medo da repressão começava a invadir a todos. "O ar seco de Brasília já estava umedecido de ditadura", escreve em seu livro "Memórias do Esquecimento".

Um mês após o golpe, a Polícia Civil prendeu Tavares na sucursal do Última Hora em Brasília. Encarcerado por três dias, foi informado por um oficial que havia sido "vítima de uma delação irresponsável". O governo, após soltá-lo, pediu desculpas ao jornalista no canal oficial de comunicação, Voz do Brasil.

A "delação irresponsável" foi obra de um dedo-duro, uma figura que começou a ganhar destaque no período da Ditadura Militar, e causou um medo geral na população. "Não se confiava em mais ninguém, nem em familiares, até um primo seu poderia virar dedo-duro e te acusar de algo para subir na vida", relata.

O trabalho dos jornalistas começava a ser dificultado pelos militares. Enquanto a expressão Revolução de 31 de março tomava conta da imprensa e da sociedade, Flávio escrevia em sua coluna movimento 1º de abril. Inconformado, o governo "sugeriu" que o repórter diminuísse o tom irônico. "Argumentei que, pela cronologia histórica, devia valer a data do triunfo do movimento, que era 1º de abril, e não quando ele começa", relembra. No entanto, os assessores do ministro do Exército não aceitaram a explicação.

Com as eleições marcadas para outubro de 1965, a população, incluindo Tavares, acreditava que o mandato de Castelo Branco acabaria em breve. "Pensávamos que ele cumpriria o que prometera em seu discurso na posse. Mas não foi o que aconteceu."

Em 27 de outubro de 1965, os militares baixaram Ato Institucional Número 2, garantindo a permanência deles no poder. "A Ditadura aparentemente branda tornar-se tétrica", comenta Tavares.


Às armas por amor

Conforme os meses passavam, crescia em Flávio Tavares um sentimento de que precisava rebelar-se contra os militares. Depois da primeira prisão, foi obrigado a ir embora de Brasília e retornou ao Rio de Janeiro. "É impossível, hoje, às novas gerações, entender como foi. Tudo era proibido."

Era questão de tempo até começar a participar da luta armada. "Após o AI-2 tudo fica claro, que a Ditadura quer se perpetuar, se tornar mais brutal e ditatorial", afirma.

De 1965 a 1967, viajava clandestinamente ao Uruguai e encontrou-se com Jango e Brizola no intuito de organizar os focos de resistência. "Hoje parece até absurdo e ridículo", pondera. Foi preso mais uma vez. Após sete meses de encarceramento, recebeu habeas corpus do Supremo Tribunal Superior (STF) e foi liberado.

Resistir, no entanto, era mais desgastante que pensava. "Tínhamos tudo contra nós. Todos os jornais passaram a ser subservientes e formaram uma opinião pública crítica à resistência. Nos chamavam de terroristas, quando o terror era implantado pelo poder."

Para Tavares, o ato de impor-se à ditadura era uma demonstração de amor à sociedade e à democracia brasileira. "Era a rebelião do amor, não do ódio. O ódio era eles que haviam implantado. Queríamos uma normalização. Tínhamos uma visão de esquerda socialista não autoritária. Éramos reformistas sociais."

Neste período, Tavares vivia uma dupla personalidade: enquanto participava da luta armada, seguia com a coluna política diária no Última Hora. Manteve boas relações com o governo, especialmente pelo fato de sua avó materna ser parente do pai do Arthur da Costa e Silva, e pode acompanhar o militar em várias viagens. "Criou em mim uma situação psicológica terrível. Era duas pessoas ao mesmo tempo", afirma.

A dualidade de Tavares acabaria com o Ato Institucional Nº 5, o mais radical dos decretos, fechando o Congresso, cassando mandatos e consolidando a a tortura e a censura à imprensa. Em sua coluna, Tavares chamou o AI-5 de "o golpe dentro do golpe". No dia em que o decreto foi baixado, abandona o cargo de chefe reportagem do Última Hora e mergulha de vez na luta armada. Inicia-se os Anos de Chumbo, o período mais cruel e violento da Ditadura Militar, o qual mudaria para sempre a vida do jornalista.

A tortura

Antes de ser preso no Rio de Janeiro em 1969, Flávio Tavares achava que as histórias de tortura eram propaganda da resistência contra a ditadura. No primeiro dia, descobriu que estava enganado. Primeiro, foram as ameaças. "Disseram que eu ficaria 30 anos na prisão", recorda. No caminho para o quartel da Polícia do Exército, os militares começam os atos de perversão, apagando um cigarro no peito de Flávio. É recepcionado pelo major-chefe do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), que passa a agredi-lo com uma mangueira de borracha.

De lá, vai direto para uma sala onde passa os próximos 30 dias. É lá que ocorrem as sessões de choque elétrico. "Começaram pelas minhas mãos e passam por todas as partes do corpo, os olhos, a língua, o pênis e o ânus", frisa. No livro Memórias do Esquecimento, Tavares, explica que o choque elétrico não se aplica com a intenção de matar, mas de reduzir o torturado a "uma condição de inferioridade e impotência absoluta, física e psicológica". "Eles não são assassinos, apenas torturadores, o estágio mais alto do sadismo", escreve na obra. A humilhação é ainda maior quando os torturadores obrigavam homens e mulheres a despir-se e batiam naqueles que não obedeciam.

Cinquenta anos após a prisão, Tavares recorda-se com detalhes das torturas vividas durante os trinta dias. "Vi coisas inenarráveis", afirma. As histórias de terror e desespero são relatadas no livro Memórias do Esquecimento. Lembra espantado do prazer que os seus torturadores sentiam ao causar dor nos prisioneiros. "Tinha um major que se excitava sexualmente dando choque."

No final do primeiro dia, Tavares é levado algemado seminu no porta-malas de uma caminhonete ao Rio Guandu, onde anos antes meia dúzia de mendigos haviam sido mortos pelo aparato militar. "Me preparei psicologicamente para morrer", admite.

A salvação veio com o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick no dia 4 de setembro de 1969, o primeiro diplomata a ser levado pela guerrilha, caso contado no filme "O que é isso companheiro?". O 12 sequestradores só soltariam o embaixador após os militares pararem com as sessões de tortura e libertassem 15 prisioneiros políticos - entre eles, Tavares e José Dirceu.

Sem poderem agredir o lajeadense, os guardas levaram Tavares para uma cela escura onde esbarrou em um homem dormindo no chão. Ao aproximar-se, descobriu que o rapaz ali deitado estava morto e precisou ficar com ele durante um tempo indeterminado. "Não sei se foram minutos ou horas. Foi uma tortura indireta. Na cela, havia o cheiro da morte."

Tavares uniu-se aos demais prisioneiros libertados e seguiram de avião para o México. Apesar das ameaças feitas pelos militares, que falavam em atirar os homens para fora, o grupo chega são e salvo na capital mexicana.

As sequelas da tortura apareceram no exílio. Seus dentes ficaram frouxos. Com o choque, a mão não servia sequer para assinar seu nome. Também vieram os pesadelos do período em que ficou encarcerado. "Até hoje eu tenho pesadelos com a prisão", desabafa. Uma década depois, em 1979, com a Anistia, Tavares pôde finalmente retornar ao Brasil.

Enquanto o sol se põe em Porto Alegre, a face de Flávio Tavares é tomada pela escuridão e pela melancolia do período mais assustador pelo qual viveu. "Foi a pior época da minha vida." Aos que ignoram a violência dos militares, o jornalista deixa uma mensagem. "Não sabem a dimensão inumana da tortura. É algo feito por psicopatas."

 

 

Comments

SEE ALSO ...