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"Sou muito mais feliz desde que comecei a fazer voluntariado"

Dia Internacional dos Voluntários homenageia aqueles que trabalham de forma gratuita para melhorar a vida de outras pessoas

Créditos: Natalia Nissen
VOLUNTARIADO: Ana Júlia Knack dedica parte de seu tempo para melhorar a autoestima das pessoas - Lidiane Mallmann

Lajeado - Ser voluntário não é apenas doar-se para o outro, mas compartilhar momentos e estar disposto a aprender o que cada pessoa tem a ensinar. O dia 5 de dezembro foi instituído pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional dos Voluntários. Ainda que eles trabalhem diariamente para transformar vidas e realidades, a data é uma forma de lembrar e comemorar os esforços das pessoas que oferecem seu tempo para proporcionar o bem-estar e a qualidade de vida do outro.

Ana Júlia Knack (33) é uma dessas pessoas que sempre procura uma brecha na rotina de trabalho formal para dividir o que sabe. Ela é profissional da área da beleza há mais de 15 anos e formada em Psicologia pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) desde 2011. Unindo as áreas de atuação, participa de projetos e ações que resgatam autoestima e promovem autoconhecimento para mulheres em situação de vulnerabilidade. Em setembro, ministrou um curso de maquiagem e auto maquiagem para as detentas do Presídio Feminino de Lajeado. A relação com o sistema prisional, no entanto, iniciou ainda no período da faculdade.

Ana Júlia conta que devido às condições financeiras, levou mais de nove anos para concluir a graduação, enquanto o tempo previsto para formação é de cinco anos. Ao longo desse tempo, aproveitou todas as oportunidades para aprender e desenvolver suas habilidades. Participou de palestras, cursos e também foi bolsista voluntária.

O primeiro contato com o ambiente carcerário foi no Presídio Regional de Santa Cruz do Sul, quando participava de algumas atividades festivas e pintava as unhas ou maquiava as presas. Depois, acabou fazendo o estágio na casa prisional e se encantou com a possibilidade de conhecer o sistema e ajudar as mulheres. "Quando o Presídio Feminino de Lajeado ficou pronto, o pessoal - da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) - já conhecia meu trabalho e me indicou. Participei do processo de elaboração do projeto para unir a psicologia com a área da beleza".

Para ela, um dos momentos mais marcantes ocorreu no presídio de Santa Cruz do Sul, quando atendeu um travesti que estava recolhido em uma cela com presos por crimes sexuais. "Por estar em um presídio masculino, teve que cortar o cabelo, parar de consumir hormônios, não podia se maquiar ou pintar as unhas. Chorava dia e noite e perdeu completamente a identidade, a questão de gênero, a autoestima. Costurava, mas não podia participar dos trabalhos de artesanato para as mulheres porque era um homem. Então a psicologia aliada à área da beleza pôde beneficiar homens e mulheres. Eu era a favor da pena de morte até entrar em um presídio. Percebi que aquelas pessoas pagam pelo que fizeram dia após dia e se uma delas aprender algo bom do que eu passo, meu trabalho já valeu a pena", conta.

Crescimento
O voluntariado permitiu a ela romper barreiras do preconceito e entender a realidade do presídio e esclarecer as dúvidas sobre as questões que muitos compartilham nas redes sociais mesmo sem conhecer. Ana Júlia é filha adotiva e tem orgulho de falar sobre o assunto, porém sofreu preconceito na infância e adolescência. "Fui adotada com cinco dias de vida e isso foi um presente para mim. Sempre aprendi que, talvez, eu tenha tido uma oportunidade que outras pessoas não tiveram. Isso tem muito a ver com a minha história. Sou contra qualquer tipo de injustiça e ser voluntária me proporciona a possibilidade de ajudar as pessoas que também sofrem algum tipo de preconceito".

A mãe dela, Dinah, trabalha há 53 anos no ramo de beleza e também é conhecida pelas ações voluntárias. Especialista em cortes de cabelo e penteados, já ministrou cursos nos presídios e acompanha a Ana Júlia nas ações feitas no salão. Em outubro, elas abriram o espaço para receber, gratuitamente, pacientes oncológicas assistidas pela Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (Aapecan) Lajeado durante uma tarde. Mãe e filha ofereceram corte de cabelo, maquiagem, manicure e coquetel em um momento de encontro e conversas. A seleção de profissionais para trabalhar com as empresárias também considera a afinidade dos candidatos com o voluntariado. O interesse em ajudar o próximo conta na hora de conquistar a vaga e pode abrir portas no mercado profissional.

Falta de tempo não é desculpa
Ana Júlia reconhece que muitas pessoas usam a falta de tempo como desculpa para não participar das atividades voluntárias. Mas ela garante que, com vontade, todos encontram um intervalo na rotina para ajudar o próximo. A recompensa é a valorização das pessoas beneficiadas com as pequenas atitudes. "Sou muito mais feliz desde que comecei a fazer voluntariado. Muita gente precisa ser ajudada e tem muita gente que poderia fazer algo. O ser humano está muito preocupado em ganhar dinheiro e às vezes não sabe porque não dá certo. Minha vida começou a fluir muito mais quando comecei a fazer trabalho voluntário".

Mais que dinheiro, o retorno do voluntariado é a satisfação e o brilho no olhar do outro. Para Ana Júlia, o importante é gostar do que se faz e estar disposto a compartilhar o saber, por mais simples que a ação possa parecer. Às vezes, o simples ato de conversar com alguém pode mudar o dia de uma pessoa.

Saiba Mais
Conforme a ONU, o voluntariado promove benefícios para a sociedade e para o indivíduo que realiza as tarefas de forma voluntária. O trabalho contribui na esfera econômica e social, para uma sociedade mais pacífica, justa e de reciprocidade entre as pessoas. No Brasil, a Lei 9.608/98 dispõe sobre o serviço voluntário. A legislação considera como serviço voluntário qualquer atividade não-remunerada, prestada por pessoa física e entidade pública, ou instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social.

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