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100 dias sem rumo

Para especialistas, presidente Jair Bolsonaro precisa focar em ações de governo e menos em polêmicas

Créditos: Julian Kober
ATENÇÃO: Bolsonaro precisa focar em reformas e lidar com a baixa popularidade - Alan Santos/Agência Brasil

Brasil - Polêmicas, confusões e pouca ação. É assim que os especialistas ouvidos pelo jornal O Informativo do Vale avaliam os 100 primeiros dias de Jair Bolsonaro frente à Presidência da República. O período, que historicamente simboliza a "lua de mel" entre o presidente e a nação, serve para avaliar o trabalho do novo governo e apontam os desafios para os próximos anos.

Bolsonaro encerra a data simbólica envolvido em controvérsias e popularidade em baixa: uma pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada no domingo (7), revela que 32% dos brasileiros avaliam o governo como ótimo ou bom, 33% considera regular e 30% como ruim ou péssimo.

Na comparação ao mesmo período de governos antecessores (eleitos via eleição), tem menor popularidade que Fernando Collor (36%), Fernando Henrique Cardoso (39%), Luiz Inácio Lula da Silva (43%) e Dilma Rousseff (47%) em seus primeiros mandatos. Entre estes, é também o que possui a maior rejeição - que até então era de Collor (19%).

Na visão do coordenador do curso de História da Univates, Mateus Dalmáz, a popularidade de Bolsonaro cai à medida em que o governo não mostra a que veio, ao mesmo tempo em que o presidente parece desconhecer as competências do cargo. Argumenta, por exemplo, que o combate à inflação não foi um dos desafios centrais do governo, embora 2018 tenha encerrado com 3,75% de inflação anual. "Pelo fato do governo reunir três campos políticos, como a direita liberal (ministério da economia, agricultura, meio ambiente, casa civil), a direita desenvolvimentista nacionalista (militares) e a direita reacionária (relações exteriores, educação, direitos humanos), há uma certa confusão de diretrizes e metas do governo", avalia.

Além das ações divergentes destas três alas, somam-se à imagem de Bolsonaro os anúncios e recuos do próprio governo diante de reações negativas às medidas e declarações. Nestes 100 dias, Bolsonaro recuou pelo menos dez vezes, desde a embaixada em Israel, críticas a imigrantes, hino nacional nas escolas e a instalação de uma base militar dos Estados Unidos no país, o que desagradou até mesmo seus ministros. "Este período também foi marcado pela elaboração de uma Reforma da Previdência sem articulação com o Congresso e diálogo com a sociedade civil, por tentativas por parte da Casa Civil de trocar apoio à reforma por cargos, por denúncias de corrupção envolvendo filhos do presidente, por demissão de ministros após processo de 'fritura', por gestão presidencial através de tweets, por revisionismo irresponsável da memória histórica", acrescenta.

Embora tenha encerrado este período de maneira turbulenta, 59% da população considera que Bolsonaro fará um governo ótimo ou bom, enquanto que 23% apostam em uma gestão ruim ou péssima e 16% regular, conforme o Datafolha. O otimismo com a gestão do militar reformado no início do mandato é maior que a de FHC em 1995 (48%) mas menor que os petistas Lula em 2003 (76%) e Dilma em 2011 (78%). Cabe a ele encontrar o rumo que lhe falta.


Foco nas reformas

Para a presidente do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), Cíntia Agostini, o governo Bolsonaro precisa dedicar-se às reformas estruturais para o país, especialmente a da previdência. "Não podemos perder o nosso foco. Todos sabem o que deve ser feito no Brasil, que são as reformas estruturantes e as de base. Por que não se faz? Porque a gente fica fazendo política de governo e não política de Estado", considera.

No entanto, a economista explica que o presidente deixa de lado estas questões e envolve-se em polêmicas ligadas a debates ideológicos - tal como o debate em torno do armamento da população, se existiu ou não uma ditadura ou se o nazismo é de esquerda. "Estamos discutindo muitas coisas que não é o momento. E aquilo que realmente precisa da atenção do governo brasileiro e dos nossos setores talvez não esteja no foco que deveria estar", ressalta. Para ela, Bolsonaro está tentando fazer com que a base governista consiga implementar seus planos. "Ele mesmo fez uma avaliação dizendo que boa parte das suas ações haviam sido cumpridas. Pode ser que a maioria tenha sido encaminhada, mas boa parte ainda não foi cumprida."

Em relação ao Ministro da Economia, Paulo Guedes, Cíntia o descreve como alguém com visão e coerente, embora concorde e discorde parcialmente em certos aspectos. "Acho que o Brasil não tem condições de ser o que ele imagina que deva ser. Não dá para olhar o setor público igual ao privado. O público tem um objetivo e um fim, o atendimento da sociedade brasileira, que é diferente do setor privado."

Critica a decisão de retirar as tarifas antidumping cobradas sobre a importação de leite em pó, integral e desnatado da União Europeia e da Nova Zelândia - medida que existe há 11 anos. "É um dos grandes exemplos de como tem que tomar cuidado e retroceder numa tomada de decisão. O Brasil pode sim passar por um movimento de concorrência e ter características liberais, defendidas por Paulo Guedes, mas a estrutura e as condições do país ainda não são as que colocam ele no mesmo patamar de competitividade que outros. Entrar neste jogo não tendo igual competitividade não permite que isso seja um jogo que nós consigamos participar. Estamos entrando de forma desigual."

Outro aspecto importante que necessita de atenção é em relação à geopolítica internacional, especialmente diante da disputa comercial entre China e Estados Unidos."Nós nos posicionamos neste momento claramente com relação a um, ancorado numa parceria com os Estados Unidos em detrimento da parceria com a China. Exportamos mais para ela que para os norte americanos. Temos que compreender o que é geopolítica internacional para daí poder tomar esse tipo de atitude. Elas podem ser perigosas à medida que a gente não tenha um entendimento correto e concreto sobre o que é isso."


Má educação

Durante os 100 primeiros dias de governo Bolsonaro, o Ministério da Educação (MEC) viu-se diante de uma série de polêmicas que culminaram na saída do titular Ricardo Vélez na segunda-feira. Para a líder do Grupo de Pesquisa Currículo, Espaço, Movimento (CEM/CNPq) da Univates, Angelica Vier Munhoz, os três meses foram catastróficos para a educação. "Foram um somatório de condutas que, por um lado, mostraram o despreparo e desconhecimento total do ministro - afinados com o presidente - acerca da educação, por outro, uma visão conservadora de um mundo estagnado que não corresponde às demandas das novas gerações. E por último, uma paralisia de ações positivas e propositivas frente ao ministério", avalia.

A docente do Centro de Ciências Humanas e Sociais da universidade critica a escola do ministro, o qual considera conservador, com ideias "autoritárias e primitivas" sobre a educação, somada à polêmica em torno da obrigatoriedade do hino nas escolas, defesa da educação domiciliar e a revisão do golpe e da ditadura nos livros didáticos. "Não é um acaso, elas estão alinhadas com um presidente despreparado, desconhecedor do processo de educação e defensor das mesmas ideologias, tais como a escola sem partido, a ideologia de gênero, etc."

Pouco agradou a entrada do novo ministro, Abraham Wintraub, economista que não possui conhecimento na área da educação. "A escolha de um economista para a pasta implica olhar para a educação pelas lentes do mercado, sob a perspectiva da iniciativa privada, por meio da lógica neoliberal. Eis aí um outro equívoco. A escola não é uma empresa, a educação não é comércio, o saber não é mercadoria. Não se trata de uma educação que ensine apenas saberes técnicos, quantificáveis, aplicáveis ou competências e habilidades para o mercado de trabalho."

Para ela, os educadores terão uma grande luta a travar nos próximos anos. "De maneiras distintas, as políticas propostas nesse governo afirmam que o lugar do professor não é um lugar de liberdade, autoria e respeito, que a educação não está na pauta de prioridades, que ela deva voltar a ser disciplinar, conteudista, sem críticas, acrescida de uma perspectiva utilitária e mercadológica. É um cenário lamentável, pois retrocedemos algumas décadas."

 

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