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A falta de sensibilidade que pode matar

Motorista incentiva mulher que ameaça se jogar de ponte, registra imagens e divulga nas redes

Créditos: Jean Peixoto
Prevenção: Franciele Schmitz e Bruna Lopes Martins falam sobre a importância da empatia e do diálogo - Jean Peixoto

Vale do Taquari - Manhã de quinta-feira sobre a ponte do Taquari. "Pula nas pedras. Água não mata", diz a voz masculina que ecoa do interior de um veículo. Do lado de fora, uma mulher de 49 anos ameaça se jogar no rio. Alterada, ela xinga de volta. Do lado de dentro, alguém filma o tumulto com um celular. Policiais e bombeiros que tentam dissuadir a mulher presenciam a cena. Atrás do veículo, que aparenta ser um caminhão, uma fila de automóveis se forma, nas duas pistas da RSC-386, entre Lajeado e Estrela. Momentos depois, a mulher se joga na água. A vítima sobreviveu. A empatia do motorista, não.

O salvamento só foi possível graças à ação conjunta do Corpo de Bombeiros Militar de Estrela e o Corpo de Bombeiros de Lajeado. Brilhantismo foi o termo utilizado pelo tenente Paulo Cesar Sulzbach para descrever a atuação dos profissionais. "Eles já estavam com o barco esperando lá embaixo antes que ela pulasse. Quando ela se jogou, a equipe conseguiu resgatá-la logo que imergiu pela primeira vez", relata. O tenente explica que, nestes casos, é preciso agir com cautela e sensibilidade para convencer a vítima a desistir. "O Corpo de Bombeiros sempre busca abordagens empáticas que valorizem a vida para desestimular o ato. Buscamos perguntar por que ela vai fazer aquilo, falamos sobre a família e lembramos que a vida vale a pena." Após o resgate, a mulher foi levada para atendimento médico no Hospital Bruno Born, em Lajeado. Participaram do salvamento, o sargento Joel Moraes da Silva, os soldados Samuel Cardozo Queiroz, Douglas Junchen e Gustavo Henrique Steffens, do CBM de Estrela. Do Corpo de Bombeiros de Lajeado, o sargento Eloir Pasch e os soldados Felipe Barth e Fernando Souza Costa.


Estimular o suicídio é crime

O tenente Sulzbach faz um alerta. "Além de dificultar e atrapalhar a ação dos bombeiros e da polícia, induzir ou instigar o suicídio é um crime previsto no Artigo 122 do Código Penal." Conforme o oficial, caso o Ministério Público decida abrir uma investigação contra o autor das imagens, ele pode ir a júri popular. "O Estado está ali para evitar aquela situação, não tem por que alguém ter uma atitude como essa. O Corpo de Bombeiros não recomenda esta prática", enfatiza.


A intolerância que vem das redes sociais

É preciso olhar o outro. "Toda pessoa que tenta o suicídio não está buscando acabar com a própria vida, mas com o sofrimento pelo qual está passando", explica a psicóloga Bruna Lopes Martins. Integrante do Comitê de Promoção à Vida e Prevenção ao Suicídio, Bruna comenta que as redes sociais potencializam a intolerância e indiferença das pessoas. "É bastante comum ler mensagens de intolerância e deboche em situações como essa", lamenta. A psicóloga também pelo WhatsApp o vídeo do homem que grita com a mulher na ponte. Salienta que é preciso promover a conscientização e a empatia entre as pessoas para que isso não ocorra. A coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) de Lajeado, Franciele Schmitz, faz um alerta para o número de tentativas de suicídio em Lajeado. "Em 2018, foram registradas 195 e dez casos consumados. Isso sem contar as ocorrências não comunicadas", destaca.

 

Escutar pode salvar vidas

Bruna Lopes Martins afirma que, muitas vezes, as pessoas precisam apenas ser ouvidas. "Não é incomum alguém chegar aqui com um pensamento suicida e, só no ato de escutá-la, o desejo se desfaz." Em contrapartida, atitudes como a do motorista, segundo a psicóloga, podem provocar uma reincidência. "O incentivo e o deboche podem fazer com que a pessoa atente novamente contra a própria vida porque geram um trauma", explica. Bruna lembra que é preciso se colocar no lugar do outro, porque ninguém está livre de enfrentar uma situação semelhante. "E se fosse um familiar ou amigo do motorista naquela situação, será que ele agiria da mesma forma, ou gostaria que o fizessem?", questiona.

Unidos pela prevenção

O Comitê de Promoção à Vida e Prevenção ao Suicídio é um grupo intersetorial composto por servidores do município que buscam encontrar caminhos para reduzir os índices na cidade. As reuniões ocorrem toda última terça-feira do mês, às 8h, na Secretaria da Saúde. Quem tiver interesse em se juntar ao grupo pode ligar para o Caps AD pelo telefone (51) 3982-1416 e solicitar informações.

 

 

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