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Cadeia leiteira se mobiliza contra medidas que podem prejudicar setor

Cooperativas, sindicatos e autoridades vão buscar apoio em Brasília

Créditos: Jean Peixoto
MUDAN�AS: Dirceu Bayer e Liane Brackman conduziram encontro para discutir alterações na cadeia leiteira - Leandro Augusto Hamester

Vale do Taquari - As instruções normativas 76 e 77, publicadas em 30 de novembro pelo Ministério da Agricultura (Mapa), e as incertezas quanto à política de antidumping vêm preocupando os produtores da região. As novas regras para o controle de qualidade da produção de leite devem entrar em vigor a partir de junho. Para discutir o tema, representantes de cooperativas, sindicatos, técnicos, autoridades e produtores do Vale do Taquari se reuniram na manhã de ontem na Associação dos Funcionários da Cooperativa Languiru, em Teutônia.


Cerca de 130 pessoas participaram da reunião, que foi conduzida pelo presidente da Languiru, Dirceu Bayer, e pela presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Teutônia/Westfália, Liane Brackman. O documento resultante do encontro será apresentado no dia 18, durante reunião na sede da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), em Porto Alegre. Na data, serão compostas comissões técnica e política para encaminhar as reivindicações da região à Brasília.


Dirceu Bayer reitera que é a favor da melhoria da qualidade dos produtos, mas salienta que os pequenos produtores precisam de um prazo maior para se adequar às novas diretrizes. "O que nós queremos é um pouco mais de prazo. Se a mudança for feita em junho, muitos produtores terão que desistir do seu ofício," O presidente da Languiru comenta que a entrada de produtos importados também prejudica o pequeno produtor.


Liane Brackman aponta que há diversas questões que, atualmente, afetam a cadeia leiteira. Além das instruções normativas, a presidente do STR relata que há entraves como a segurança de preço de mercado, a perda dos subsídios para a energia elétrica nas propriedades rurais e a instabilidade nas alíquotas antidumping com relação às importações. "O foco aqui seria a ampliação do prazo para a implementação das IN, mas também é a organização e construção de mecanismos de segurança e proteção dentro da nossa cadeia."

 


Preocupação


O produtor Fábio Luiz Secchi (31), morador de Linha Catarina, em Teutônia, está apreensivo com as novas regras. A lado da esposa Simone, do sogro Bruno e da sogra Liane, ele produz diariamente 600 litros de leite em sua propriedade. Por mês, a produção chega a 18 mil litros. Desde 2013, ele e a esposa voltaram para a área rural e começaram a trabalhar com leite. "Estamos muito apreensivos. A minha preocupação é maior com relação às cooperativas e a população do que com a propriedade em si. Nós já estamos dentro dos padrões que passam a ser exigidos, pois investimos bastante. Mas sabemos que mais de 50% dos produtores terá muita dificuldade de se adequar. Mesmo para nós, a atividade passa a ser muito arriscada, pois nos questionamos até que ponto vale a pena seguir", afirma.

Na propriedade de Marco Ricardo Aschebrock (38), a sensação de incerteza é a mesma. Morador de Linha Catarina, ele produz de 25 mil a 30 mil litros de leite por mês. Com ajuda da esposa Patrícia, do pai Dário e da mãe Veranice, ele alcança uma média diária de até mil litros. Para dar conta da produção, ele mantém 44 vacas em lactação. "Eu fiquei sabendo recentemente destas mudanças e fiquei apreensivo. Está difícil para nós", acrescenta.

Instruções Normativas


A IN 76 apresenta os regulamentos técnicos para a identificação e qualidade do leite cru, do leite pasteurizado e do leite pasteurizado tipo A. Já a IN 77 estabelece novos critérios e procedimentos para a produção, acondicionamento, conservação, transporte, seleção e recepção do leite cru em estabelecimentos registrados no serviço de inspeção oficial, revogando as INs 62/11, 07/16 e 31/18.


Contagem bacteriana


O gerente industrial da Languiru, Mauro Aschebrock, explicou as questões técnicas que envolvem as instruções normativas e esclareceu as dúvidas dos presentes. Aschebrock comenta que o produtor precisa compreender de que forma essas mudanças podem impactar na produção e comercialização do seu produto. "Há duas questões. A primeira é a exigência físico-química. Ou seja, a contagem bacteriana do leite, que poderá ter 300 mil UFC/ml - média geométrica de três meses. A instrução anterior previa um rigor um pouco superior. O que hoje será fixado em 300 mil UFC/ml, antes chegava a 100 mil." No entanto, ele destaca que antes não existia o critério da suspensão de venda. Hoje, se o produtor obtiver média geométrica acima dos 300 mil UFC/ml, ele tem oportunidade de comprovar no quarto mês uma contagem inferior. Caso contrário, ele será suspenso e não poderá mais entregar o leite. "Essa é uma exigência nova que, até então, não existia", destaca.


Resfriamento

A segunda preocupação dos produtores se concentra nas temperaturas de armazenamento estabelecida com as novas regras. A temperatura de recebimento na plataforma - ou seja, aquela que a indústria pode receber o leite cru - até então era de 10ºC. A partir da IN, o mínimo exigido será 7ºC. Isso significa que o produtor terá que resfriar o leite, no máximo, a 4ºC ou 5ºC, porque existe uma perda de frio. Mauro Aschebrock comenta que o aquecimento pode ocorrer entre o carregamento na propriedade, deslocamento do produto e a chegada na indústria. "Isso significa que o produtor também terá que investir em resfriamento para atender essa nova temperatura. Muitos produtores precisarão readequar o resfriador de leite, substituindo o atual, por um mais potente", afirma. O gerente industrial projeta que a medida deva impactar principalmente os pequenos produtores.

Análise de antibióticos

Outro tema que requer atenção dos produtores é a análise de antibióticos. Mauro Aschebrock explica que anteriormente a indústria precisava fazer a análise de duas famílias de antibióticos: Beta-lactâmicos e Tetraciclinas. A partir de agora, o Mapa passa a exigir, com análises externas, uma pesquisa de outras famílias. "São famílias que, até então, não eram pesquisadas. Isso pode acarretar na condenação de leite. Ou seja, o leite que chega na fábrica não pode ser utilizado na indústria. O que, automaticamente, impacta no bolso do produtor, pois a indústria não pode pagar por um leite que ela não tem como usar", frisa.


Antidumping

O presidente Jair Bolsonaro anunciou, na segunda-feira, que os problemas ocasionados pela retirada da taxa de antidumping para a importação de leite em pó, integral ou desnatado oriundo da União Europeia e da Nova Zelândia estariam resolvidos. A solução seria a publicação, até ontem, de uma medida que determina o aumento do imposto de importação, atualmente de 28%. A nova alíquota do imposto não foi informada, mas a soma da antiga alíquota com a taxa antidumping resultaria em 42,8%, cobrindo o desfalque produzido pela medida anterior.

 

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